Aliança do Yoga

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Textos

O QUE NÃO É MEDITAÇÃO

O QUE NÃO É MEDITAÇÃO

1. Uma coisa sisuda e triste
Quando falamos em meditar, geralmente logo se imagina alguém muito sério, sisudo, sentado com as pernas cruzadas, com as mãos sobre os joelhos, com os dedos formando círculos e, freqüentemente, repetindo sons que ninguém consegue entender. De primeira, costuma-se fazer idéia de algo triste e monótono, praticado por pessoas um tanto quanto alienadas, quando não meio malucas. E mais, além de muitos construírem tal impressão, a maior parte das pessoas sequer consegue se imaginar praticando algum tipo de meditação; nesse momento, ouve-se muito a frase "Eu?!? Ficar assim, parado, sem fazer nada? Só se me amarrarem!". Na verdade, essa é uma falsa idéia, uma impressão distorcida, em parte mesmo por culpa de alguns meditadores do passado. Para meditar, não precisa se ficar triste, nem de "cara feia"; ao contrário, pode ser um momento de grande alegria. E quanto a ficar parado, é uma coisa que se aprende gradativamente, e nem sempre se precisa começar assim. Além disso, não se deve confundir a tranqüilidade com a tristeza. Isso seria como a atitude da criança, que vê o pai cochilando gostosamente em uma rede, após um agradável almoço na varanda de uma casa à beira da praia e julga tal atitude com alguma coisa muito chata, parada e triste, da qual ela não consegue entender como alguém pode gostar.

2. Uma religião
As religiões orientais freqüentemente sugerem técnicas meditativas aos seus seguidores, e isso acabou provocando um desvio de interpretação, no qual se imagina que meditação e religião do oriente são a mesma coisa. A ligação entre tais correntes religiosas e a meditação é fácil de entender. A nossa cultura, judaico-cristã, apesar de pregar um Deus presente em todas as coisas, propõe uma oração para um Deus dual; e isso é bem entendido quando falamos em "orar para Deus que está no céu", ou seja, orar para Deus que está longe, no céus, separado e muito acima de nós mortais e pecadores. Tal abordagem tem o mérito de fazer com que nos sintamos pequenos e cientes de que precisamos buscar o crescimento, e com isso diminui o inchaço doentio do ego. Porém, também traz consigo a imagem de um Deus que está fora de nós. Nas religiões orientais, ao contrário, prega-se a existência de um Princípio Divino interno, que na verdade seria a essência de cada um de nós. Assim sendo, com uma essência divina, a busca de cada um consistiria em esplêndido instrumento. Esse posicionamento, sem dúvida, induz à auto-observação, catalisando o crescimento individual, embora também crie a tendência à internalização exagerada, isolamento e menor troca social, o que também pode ser um retardo para o equilíbrio do meditador. Assim sendo, as técnicas meditativas não pertencem à esta ou àquela cultura, ou à esta ou àquela religião, embora possam ter sido disseminadas a partir de focos específicos. É possível meditar na respiração com os budistas sem ser um budista; é possível meditar caminhando com os vietnamitas sem ser um vietnamita; é possível meditar girando com os sufis sem ser um sufi. Na verdade, mesmo em outras comunidades muito antigas já se conheciam técnicas meditativas, como entre os índios americanos e os esquimós. O que ocorre, e freqüentemente causa muita confusão, é que algumas técnicas foram criadas sobre princípios de alguma tradição religiosa, que precisam ser explicados no momento de ensiná-la. Vamos supor que você esteja em um curso de canto gregoriano, por exemplo, e a peça que vai ser ensinada hoje é baseada no amor de Maria pelo menino Jesus. É claro que o professor, para explicar a interpretação que deverá ser dada pelo coro, terá que inserir a todos no contexto em que a peça foi criada, e por isso começa a relatar como o autor inspirou-se na amorosidade da Virgem Maria. Se alguém entrasse na sala de canto neste momento, pensaria tratar-se de uma aula de religião, porque a conversa poderia lembrar um sermão de igreja; porém, nesse exemplo, tanto o professor quanto os alunos poderiam até ser ateus, pois o aprendizado da técnica não exige que se incorpore a crença religiosa. Para se meditar, não é preciso pertencer a alguma religião específica. Não é preciso deixar de pertencer a alguma religião específica. Não é preciso ter religião. Não é preciso, nem mesmo, acreditar em Deus.

3. Uma filosofia
Como vimos acima, várias culturas já foram berços de técnicas meditativas. Mesmo em tribos africanas e entre cristãos da antiguidade, já foram detectadas práticas de meditação. Por isso, para aprender a meditar, não é preciso preocupar-se em aprender princípios filosóficos desta ou daquela cultura. Os orientais, por muito tempo, pecaram por se comportar como um coração constantemente em diástole, voltados para si, evitando o contato, o toque e a exposição dos sentimentos. Enquanto isso, os ocidentais tendem a se comportar como um coração em permanente sístole, voltados apenas para o exterior, para as relações sociais e a exposição de idéias e sentimentos (mesmo que falsos), evitando parar e olhar para dentro de si. Como vemos, o equilíbrio não é ocidental ou oriental, e se buscamos o equilíbrio através da meditação, devemos buscá-lo independentemente de valores culturais. Um meditador não é "versado nisto ou aquilo", mas sim alguém que deseja viver a agradável aventura de experienciar as técnicas meditativas sem perder a capacidade de relacionar-se.

4. Uma prática que exige mudanças
Nada é "exigido" a quem deseja aprender a meditar. Não é necessário adotar uma religião e nem aprender uma filosofia. Não é preciso ser esotérico, nem gostar de incensos e nem usar roupas indianas. Não é preciso tornar-se sisudo, nem mudar a postura social, nem deixar de sair à noite. Não é preciso deixar de beber, nem de fumar, nem de fazer sexo e nem de comer carne. Caso ocorra alguma mudança, ela deverá acontecer "de dentro para fora" e será tão espontânea, tão natural, que não poderá causar nenhuma sensação opressora em você.


Cardoso, Rad & Leite, Jr. Noções Básicas sobre Meditação - Universidade Federal de São Paulo ­ Departamento de Obstetrícia/Departamento de Psicobiologia. São Paulo, 2000.

 

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