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Textos

Satyam e Mithyá – a Percepção da Realidade

por Marcelo Cruz

Para tudo que existe no universo possuindo uma forma identificável através de nossos órgãos de percepção damos um nome, námarúpa. Fazemos isso para que a comunicação fique mais fácil e para que possamos transmitir com maior clareza aquilo que desejamos, sem necessitar de interpretações de quem recebe a informação. Logo, o conhecimento é transmitido através das palavras, shabdam. Criamos assim o que chamamos de “conceito”.

Assim, shabdapramánam é a utilização das palavras como meio de conhecimento. Esta atitude comum ao ser humano acaba tornando-se automática e causa um efeito na mente quanto à existência do que vemos, ou seja, se o objeto sempre existiu com esse nome e com essa forma ou se foi montado inteligentemente, srishtih.

Tomemos como exemplo um automóvel. Não temos dúvidas quanto à existência do mesmo, podemos tocá-lo, caso ele nos atinja somos feridos, podemos nos deslocar com ele, nos proteger da chuva, namorar dentro, etc. Mas será que o automóvel realmente existe? Depende. Toda definição é dada partindo-se de um ponto de raciocínio, sempre em relação a algo que anteriormente já possuía uma definição.

Existe algo montado inteligentemente com certo material (aço, borracha, tecido, etc.) que se chama automóvel (conceito). Através de uma inteligência, todo o material é moldado de certa maneira e colocado em conjunto. A este conjunto damos o nome de automóvel. Tudo isto para perceber que realmente o automóvel não existe, ou seja, não tem realidade absoluta. Isto é mithyá. Todo o material que forma o automóvel, neste ponto de vista, é satyam, aquilo que já existia anteriormente e que foi usado para elaborar-se o que posteriormente veio a ser definido como automóvel.

A partir deste exemplo podemos esclarecer que mithyá é aquilo que não tem realidade própria, ou seja, depende de algo para tornar-se real. E satyam é o que dá existência a algo e em relação ao objeto que torna real, tem realidade independente.

Outro exemplo que podemos citar é o de uma camisa. A camisa existe, colocamos em nosso corpo para nos proteger do frio, nos dá certa aparência, sentimos seu conforto (ou não), etc. Mas será que o que existe é a camisa ou somente o tecido montado inteligentemente (srishtih) ao qual damos o nome de camisa? Não conseguimos imaginar a camisa independente de um tecido. O tecido existe independente de ser cortado e costurado em forma de camisa, mas a recíproca não é verdadeira. Novamente temos aqui o tecido como satyam da camisa e esta como mithyá que apenas existe devido ao tecido, cortado e costurado de certa maneira, ou seja, inteligentemente.

Estes exemplos são dados para que possamos começar a perceber a real natureza dos objetos que nos cercam. O que tem existência própria e o que é montado inteligentemente, ou seja, criado. Esta percepção irá nos levar a um questionamento em sentido inverso de como tudo o que é objeto de apreciação por nossos órgãos de percepção é formado, inclusive nós mesmos. Isto é layah.

Como somos formados? Como os demais seres são formados? O que está na base de tudo, sempre existente, como consciência (inteligência) e plenitude?

Partindo do exemplo da camisa, esta em relação ao tecido é mithyá, já que depende do mesmo para existir com sua própria forma (svarúpam) e o nome de camisa (namárúpa), e o tecido torna-se satyam, pois dá existência a camisa. Mas se analisarmos bem, o tecido é mithyá em relação aos fios de algodão que o compõem e estes últimos satyam, pois dão existência ao tecido. Aos fios de algodão em certa quantidade específica (determinada por uma inteligência) e montados de certa maneira (também determinada pela mesma inteligência) damos o nome de tecido A, B, C ou D.

Já estes mesmos fios, em relação ao vegetal que lhe dão existência são mithyá e o vegetal, satyam. E assim sucessivamente até chegarmos onde só há aparicchinnam caitanyam (consciência ilimitada). Portanto toda a criação é mithyá. Púrnam udacyate (da plenitude a plenitude vem).

Seguindo este raciocínio chegaremos à realidade última, ou seja, aquilo que é abádhitam satyam, não sujeito à negação. Só o que não pode ser negado é a verdade. Não exige conceitos anteriores para sustentar sua definição.

Para que possamos nos entender e apreciar-nos também como criação (já que somos montados inteligentemente!) deve-se prestar atenção ao que atribuímos eternidade, não a tendo, e ao que não atribuímos eternidade, tendo. Se toda a criação é mithyá, tem início, meio e fim. Aquilo que não pode ser objeto de negação é a verdade inquestionável, satyam, e que dá existência a tudo o que observamos e não é limitado pelo tempo. Podemos nos colocar em posição de questionar esta afirmação e chegaremos à conclusão de que a verdade é a nossa própria natureza, átmá. Para isso basta questionarmos se existimos. Podemos negar tudo aquilo que observamos, mas não podemos negar nossa existência, ou seja, não dá para nos dispensarmos. Tudo o que observamos existe porque estamos lá para dar luz à observação.

Podemos observar nossos pensamentos (mithyá), pois é a consciência (satyam) que dá luz aos mesmos. Só observando nossos pensamentos é que podemos falar sobre eles. Tudo pode ser objeto de definição, nosso corpo, nossas emoções, nossa energia, mas não conseguimos observar a consciência. Átmá não pode ser objeto de observação. Podemos fracionar um átomo em partículas (tanmatra) e até transformar os materiais, mas átmá é imutável porque não é formado, não tem atributos. Tudo que possui atributos é sujeito a transformação.

A realidade é auto-evidente, possui luz própria e a tudo dá existência. Átmá é aparoksha, não requer nenhum meio de conhecimento para ser conhecido. Não requer percepção, inferência, presunção, etc.. É o que dá existência aos meios de conhecimento. Tudo o que é conhecido através dos meios de conhecimento estará sujeito a um futuro questionamento pela ciência. A ciência não pode provar que a consciência “não é”. Tudo o mais precisamos dos jñánendriya para tomar conhecimento.

Todo objeto depende de outro pra ter existência e, assim, para que possamos observá-lo. O pote depende do barro para existir, o barro dos minerais, estes dos átomos, estes das partículas, estas dos conceitos e estes da consciência que dá existência a tudo. Tudo é asat, mithyá (irreal, sem realidade própria), só átmá é satyam (real, verdadeiro), a consciência que não depende de nada para existir. Não é shúnya, vazio, não-existência. É justamente o oposto, todo-existente e que a tudo dá existência, satyam. É o que conhecemos por sanátana ou nitya, não existe limitação pelo tempo. É sempre existente no passado, no presente e no futuro.

Este discernimento sobre a realidade é o que o Yoga nos traz para que possamos entender a complexidade da Criação. Assim podemos viver objetivamente e inteligentemente com a lógica da observação. Nossas aflições, prazeres, buscas, tudo é mithyá e como tal têm início, meio e fim. Saber claramente que somos satyam em nossa natureza da mesma maneira como sabemos que somos homens ou mulheres sem precisar pensar sobre isso, isto é mokshah.

Om Tat Sat

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