Aliança do Yoga

Este Centro possui Professores Filiados na Aliança do Yoga

Textos

Medite no Conforto

Medite no Conforto
Evite os incômodos físicos da meditação para aproveitar todos os seus benefícios

Por Madu Cabral

Os benefícios da meditação são comprovados e repetidos há séculos. Aumento da concentração, combate ao estresse, melhora do sistema imunológico e diminuição da pressão arterial são só alguns deles. Mas a prática pode ter uma barreira difícil de ser ultrapassada — os desconfortos de manter uma postura sentada podem acabar com a meditação mesmo dos yogis mais providos de tapas (esforço sobre si próprio).

A palavra asana significa assento, como explica o dr. M. L. Gharote, fundador do Instituto de Yoga de Lonavla e renomado pesquisador de Yogaterapia, em seu livro Técnicas de Yoga (Phorte Editora). “A palavra asana deriva da raiz sânscrita as e significa ‘sentar’ (asyate anena). [...] Fisicamente ela denota postura — uma postura sentada ou um assento.” O autor continua citando outras fontes antigas, como os Vedas, “onde não há uma referência direta à palavra asana ou a nomes de asanas. Contudo, há indicações de alguns modos de sentar-se. No Rgveda, asana significa assumir uma posição sentada com as pernas cruzadas”.

Nos manuais clássicos mais famosos de Hatha Yoga, as posturas sentadas são grande maioria e consideradas as mais benéficas. O sidhasana (postura perfeita) é considerado, no Hatha Yoga Pradipika, o mais importante dos asanas. O manual de técnicas yóguicas cita que “siddhasana permite atravessar a porta que conduz à perfeição”. É também o primeiro asana citado no Gheranda Samhita, outro texto clássico de Hatha Yoga do século XVII. O texto diz que “esta postura conduz à libertação”.

Mas a maioria das pessoas tem grandes dificuldades em permanecer durante muito tempo em uma postura de meditação. E quem já passou por isso sabe que é impossível se concentrar na respiração com dor no joelho ou com a perna formigando. Os pensamentos ficam ainda mais tumultuados e o incômodo pode, além de acabar com a meditação, causar problemas mais graves.

Aprendendo sobre o corpo

“Para um corpo ocidental, em que geralmente as articulações do quadril e joelhos estão rígidas, é muito difícil manter uma posição de meditação”, explica a professora de Iyengar Yoga e diretora do estúdio Iyengar Yoga Lapa Rosana Seligmann.

A principal dificuldade é a falta de flexibilidade no quadril. Com a musculatura tensa e encurtada, o quadril adota uma postura de retroversão (vira a base para a frente, formando uma “corcunda” na região da lombar), dificultando o alinhamento dos ísquios com o chão. A fisioterapeuta e professora de Yoga Carolina Langowski ressalta que “assim se torna impossível manter a coluna alinhada, pois sua base, o quadril, já parte de um desalinhamento”. Sobre os joelhos, a professora, que dá cursos de anatomia aplicada ao Yoga, explica que o encurtamento da musculatura adutora os manterá elevados do chão, o que pode gerar desconforto.

O clássico

A postura de referência para meditação costuma ser o padmasana (postura do lótus). Isso acontece porque, para quem consegue fazê-la confortavelmente, é um dos asanas mais relaxantes. “O corpo está sentado, em descanso, mas a posição das pernas cruzadas e da coluna ereta mantém a mente atenta e alerta. Esse estado de relaxamento e presença é favorável à meditação”, explica Rosana.

O problema é que essa é provavelmente uma das posturas mais difíceis do Yoga e tem gente que simplesmente nunca vai conseguir fazê-la. “Essa postura exige uma grande amplitude de rotação externa do quadril (cabeça do fêmur e acetábulo), que geralmente é limitada e é necessário um trabalho gradativo para desenvolvê-la”, adverte Carolina.

Os perigos começam quando o praticante não tem consciência de que o movimento deve partir do quadril. Carolina explica que quando não temos rotação externa no quadril suficiente para fazer a postura e fazemos mesmo assim, a falta de amplitude do quadril é compensada pelo joelho e tornozelo. “Se o movimento não partir do quadril, o joelho é obrigado a fazer uma rotação. Dessa forma, comprimimos o menisco medial e distendemos o ligamento colateral do joelho. Esse mecanismo, repetido por longas permanências, pode acarretar microlesões no menisco”, diz a fisioterapeuta.

Soluções

Mas um trabalho bem-feito de asanas pode ajudar a permanência na postura de meditação, desde que ela seja apropriada ao seu corpo, seja qual for ela. “Do ponto de vista meramente físico, o Yoga cura gradativamente a rigidez, tonifica os órgãos e ativa a circulação, possibilitando ao praticante assumir uma postura meditativa sem que o corpo seja um impedimento”, explica Rosana.

Para quem sentir dificuldade em permanecer sentado, incluir na prática diária posturas que trabalhem bastante a região do quadril pode ajudar. Carolina dá as seguintes indicações de prática:

- Durante as flexões como paschimotanasana (postura da pinça), sempre enfatize a flexão no quadril e não só na coluna. O dandasana (postura do bastão) é ótimo para manter essa consciência e fortalecer a musculatura eretora da espinha, que vai ajudar a manter a coluna ereta.

- Baddhakonasana (postura entrelaçada do ângulo) ajuda na flexibilidade dos adutores, solta o quadril e faz com que os joelhos se aproximem mais do chão.

- Posturas como ardha padmasana (postura do meio lótus) ou sucirandhrasana (postura do olho da agulha) trabalham a musculatura na região dos glúteos e irão ajudar na rotação externa do quadril.

Mas a dica mais importante vale para todas as posturas do Yoga, não só para as de meditação. Carolina lembra que a regra para uma prática segura é simples: se o asana estiver confortável, permaneça; se não estiver, adapte-o ao seu corpo. “A meditação só será eficiente se seu corpo estiver confortável e estável”, esclarece a professora.

Acorda!

Quem consegue sobreviver a uma sessão inteira, imóvel e sem prejudicar o corpo, tem ainda outro problema: a dormência e o formigamento das pernas quando tenta desfazer a postura. “As pernas ficam dormentes em posturas meditativas quando há obstrução da circulação, com consequente dificuldade de irrigação das extremidades inferiores”, explica o professor de Yoga e anatomia aplicada ao Yoga, Gerson D’Addio. O professor ensina que para minimizar esses efeitos, podem ser feitos ajustes na posição das pernas e do quadril, visando acomodá-los da melhor maneira, evitando compressões desnecessárias de regiões próximas às articulações. “Se, ao sair da postura, o formigamento persistir, podemos ‘estilingar’ o hálux (dedão) do membro inferior correspondente para restabelecer mais prontamente a circulação na região”, aconselha Gerson.

Mais conforto

O indiano professor de Iyengar Yoga Arun, em recente visita ao Brasil, deu mais algumas dicas para melhorar a prática de quem medita:

- A postura svastikasana (postura auspiciosa), com a ajuda de alguns props, pode ser a mais confortável para os iniciantes. Sente-se sobre um ou dois cobertores dobrados, bem na ponta, com a quina de um dos lados apontando para a frente entre as pernas. Dessa forma, os ísquios e o períneo ficam bem apoiados sobre o cobertor. As pernas devem estar dobradas de forma que os pés fiquem abaixo do joelho oposto e as pernas fiquem apoiadas e possam relaxar. Quem não conseguir apoiar os joelhos nos pés pode colocar um cobertor ou mat dobrado entre o joelho e o pé da perna da frente.

- Se nem essa postura for confortável, o professor aconselha sentar em uma cadeira que tenha altura para que os pés fiquem apoiados no chão e as coxas em um ângulo de 90° em relação às panturrilhas.

Matéria retirada da revista PYJ – Edição 27. Abril de 2009.
Acesse o site: www.eyoga.com.br

 

Rua Gonçalves Dias, nº. 109 Pio Correa - Criciúma/SC