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As Qualificações e Virtudes daquele que deseja Brahmavidyá - Marcelo Cruz

As qualificações e virtudes daquele que deseja Brahmavidyá
Marcelo Cruz

Dentre os quatro ramos tradicionais do Yoga, sendo eles Karma, Bhakti, Rája e Jñána , este último é aquele tido como o mais difícil de ser praticado e compreendido.

Correta ou não esta divisão e a afirmação, alguns shástra esclarecem o porquê da dificuldade enumerando os requisitos que o praticante deste Yoga deve ter para que possa desenvolver seu sádhana mental.

Entendendo-se Vedánta como Jñána Yoga, o mestre Sri Shankaráchárya estabeleceu alguns requisitos para o jijñásu ou adhikár…, aquele que deseja átmavidyá ou o qualificado para o autoconhecimento.

No Tattva Bodha, texto este direcionado àqueles que desejam o conhecimento da verdade, quatro qualificações e seis virtudes são os pré-requisitos para o praticante. Não que devam estar todos presentes, mas que haja a incidência de alguns. Com o tempo e a dedicação, automaticamente, aqueles que estavam ausentes se tornam presentes?

Elenca as qualificações como sendo:

1.Discriminação entre o eterno e o não-eterno. Esta é a base de todo o ensinamento. Discernir entre o ilimitado e o livre de limitação é fundamental, pois o ser humano é movido por desejos e aversões na busca eterna pela felicidade, cego de que aquilo que é limitado fatalmente lhe trará frustração. A identificação do mundo relativo como ausente de luz própria e a verdade sobre a única luz que dá existência a tudo é que trará, por fim, a satisfação e o entendimento de que o buscador já é tudo o que precisa ser, ou seja, pleno. Só através da discriminação entende-se o valor dos valores do mundo relativo e do Absoluto. O conhecimento incorreto atribuindo-se eternidade ao não-eterno é a causa primordial de sofrimento. Tudo tem início, duração e fim, menos átma que é eterno e livre de limitação.


2.Desapego pelo desfrutar do resultado da ação neste mundo e no outro. Aqui se entende vairágya. E a única situação na qual é realmente compreendido é aquela aonde o discernimento entre o eterno e o não-eterno vem primeiro. Somente após ter identificado o valor do valor, quantificado aquilo de que se está abrindo mão como ausente de ser fonte de felicidade é que se tem o entendimento correto de vairágya; caso contrário é desistência. Percebe-se que é desistência quando apresentada uma situação diversa daquela onde se abriu mão por achar ter entendido ser o objeto desprovido de valor, a pessoa muda e faz diferente, desejando e adquirindo. É desistência por não haver possibilidade de aquisição e não por entender que aquele objeto não era fonte de felicidade. Quando há o entendimento o desapego aos frutos das ações é natural. Não existe sentimento de perda. Quantos renunciantes retornam ao mundo, ao vyavahára, após certas experiências ou situações? Isto identifica o não entendimento ainda da instituição da renúncia. Talvez não fosse a época correta, algo ainda restava a ser vivenciado.


3.O grupo de seis virtudes a começar por Shama. O texto descrevia quatro qualificações, mas eis que, para surpresa geral, ele acrescenta dentro de uma qualificação seis virtudes.


•Shama, gerenciamento sobre a mente. É a capacidade de controlar e conhecer a mente, suas reações, impulsos, etc. Não deixar que ela vagueie em todas as direções, mas sim pelo caminho escolhido pela pessoa. Saber o que perturba, o que agrada, o que entristece, ou seja, conhecer as sementes da personalidade para que não seja levado pelas situações, estando sempre atento às ações e reações caso estas aconteçam.
•Dama, domínio sobre os órgãos dos sentidos e órgãos de ação. Aqui é como se fosse um segundo estágio para que as ações sejam conhecidas a um nível mais denso, do corpo, para que, se ultrapassarem shama sejam aqui então conhecidas e dominadas. A prática da repetição do controle e domínio sobre os órgãos dos sentidos e de ação leva a shama. Assim, deixa de viver no automático e passa a estar atento a tudo.
•Uparama, o cumprimento dos próprios deveres, svadharma. Na tradição hindu, cada um deve cumprir seu dharma, pois é isto que sustenta o mundo do jeito como ele é. De nada adianta fazer aquilo que é dever de outro. Cumprir o seu dever dentro da sociedade, mas sempre tendo como objetivo maior o autoconhecimento. Para isto é necessário shama e dama.
• Titikshá, lidar com os opostos equanimente, tolerância. O mundo é dual e constantemente se modifica. Essa é sua natureza. O ser humano acaba cansando do bom e do ruim porque deseja sempre a mudança de acordo com suas projeções, padrões, etc. A capacidade de lidar com estas situações, mas com a mente sátvica, entendendo e tolerando o mundo e as pessoas como elas são. Não é uma aceitação de tudo, mas uma compreensão e inteligência em lidar e acomodar as situações da melhor maneira possível.
•Shraddhá, fé no ensinamento e no Guru. Um exemplo claro que explica esta virtude é aquele da sala escura. Há um ambiente escuro dentro da casa, todo mobiliado e decorado. Após acender-se a luz, se pode observar tudo que há no ambiente. Significa que os móveis, a decoração, sempre existiram no recinto. A ausência de luz é que impedia de serem vistos. Assim é o autoconhecimento. O Guru é aquele(a) que traz a luz para que se veja a real natureza de existência, consciência e plenitude que já somos. Logo, o conhecimento não é adquirido, mas revelado na pessoa, que já o possuía sem saber. Este é o papel do Mestre, fazer com que a pessoa veja o que ele vê, da mesma maneira que aprendeu. Daí infere-se que não se aprende Vedánta apenas lendo. Precisa da transferência da visão. Quanto mais se confia, mais shraddhá se estabelece. Não é uma fé cega. É um processo de conhecer a pessoa e criar uma confiança, aos poucos, questionando e observando. Aí o elo se forma e o conhecimento flui, dia após dia. Surge a entrega plena em confiança.
•Samádhánam, capacidade de fixar a mente na contemplação da real natureza do Ser. É a capacidade da mente em estar concentrada, mas não em qualquer objeto. Não se pode descrever átma. Deve se ter uma mente com a qualidade de concentrar-se em algo abstrato e lá manter-se com pensamentos da mesma natureza.


4.E o desejo por libertação. Encerra as quatro qualificações com aquela que é a que consome todos os desejos, ou seja, aquilo que finalmente libertará do sofrimento e da busca. O desejo pelo infinito, livre de limitação. Levará, assim, ao entendimento de que somente o autoconhecimento libertará do samsára. É aquela velha estória dos “cabelos pegando fogo”. Descreve-se a pessoa que anseia por libertação como aquela que tem seus cabelos em chamas. Precisa imediatamente de água, pois a cabeleira queima muito rápido. Assim é o desejo por libertação, urgente. E a tradição nos shástra é clara já que Pátañjali ensina nos sútra I.22 e I.23 que “o samádhi está próximo para aqueles motivados e vigorosos na prática” e “a diferença no resultado está em função da motivação que pode ser de três tipos: suave, média ou forte”.

Daqui conclui-se que a dedicação deve estar presente, como em qualquer prática de Yoga, mas certos atributos são bem específicos. Lembre-se sempre que o dom é de Íshvara e não do jíva. Assim, é um conhecimento acessível a todos que queiram se libertar dos condicionamentos, padrões, projeções, julgamentos, etc., entendendo e compreendendo melhor toda a complexidade da mente humana.

Este autoconhecimento é que nos torna livres das limitações dos upádhi, revelando-nos que nossa real natureza é existência, consciência e plenitude.



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