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Tapas é Ser mais Forte que as Próprias Fraquezas

Por Pedro Kupfer

Este título nos lembra o propósito dessa prática, por vezes mal compreendida, que é o tapas. Tapas é uma palavra sânscrita que deriva de tap, que significa “tornar-se ardente”. O termo usado para dizer chama ou brilho, tejas, vem da mesma raiz. Ou seja: na palavra tapas temos embutida as ideias de luz, calor, fogo ou radiância, símbolos que nos lembram a importância da motivação ao realizar quaisquer ações.

Tapas é o terceiro preceito de conduta dos niyamas, o segundo grupo de recomendações dadas pelo sábio Patañjali no Yoga Sutra. Embora possamos de fato traduzir tapas corretamente como disciplina ou austeridade, uma tradução mais exata seria “esforço sobre si mesmo”.

Yoga é um dos caminhos que complementam o autoconhecimento, no processo que conduz à liberdade, moksha. Sendo este um caminho essencialmente prático, muito facilmente tendemos a pensar que devemos seguir regras para realizá-lo. Como uma dessas “regras”, evidentemente seria fazer tapas, podemos cair na armadilha de achar que devemos nos forçar na prática até que as coisas comecem a fluir de maneira mais fácil e espontânea.



O método.

Embora um esforço seja realmente necessário ao praticar (assim como para realizar qualquer outra ação), devemos aplicar o bom-senso para compreender exatamente o que significa fazer tapas. O curioso é que praticar tapas tem menos a ver com seguir regras e mais a ver com descobrir em si mesmo a real motivação para praticar. Pessoalmente, não gosto da palavra disciplina. Disciplina me lembra regras a serem seguidas mecanicamente e, muitas vezes, contra a própria vontade.

Tapas é perceber as limitações provocadas por crenças ou hábitos mecânicos – as tais “fraquezas” mencionadas no título, e ser capaz de crescer através delas. No entanto, ao invés de olhar para essas limitações como um monstro de sete cabeças, posso ver a possibilidade do crescimento como um jogo.

Essa mudança de perspectiva me leva a ter uma atitude mais afirmativa, mais leve e menos solene em relação ao que significa auto-superação, já que não vejo a disciplina como uma tábua de salvação, nem os obstáculos a serem superados como forças superiores às minhas próprias.

Praticar tapas, nesse contexto, torna-se uma atividade estimulante e desafiadora, independentemente do tipo de prática que estivermos fazendo, pois nasce da motivação e do foco no objetivo primordial, que é a possibilidade de conhecer a si mesmo como alguém livre de quaisquer limitações e, portanto, pleno e feliz.

Quando esse meu objetivo não está suficientemente claro, perco com facilidade o foco e a concentração, e o tapas se dilui. Se não souber exatamente o que busco com a prática, naturalmente a motivação se perde e, distraidamente, buscarei outra atividade mais “estimulante”.



Pranayama e surf.

Gosto de ver o tapas como um desafio-brincadeira, no sentido que, como praticante, eu poderia escolher, ou não, realizar uma determinada ação. Por exemplo, numa prática de pranayama (respiratórios), temos a possibilidade de reter o ar. “Vamos ver o que acontece se permaneço mais alguns segundos com os pulmões cheios, antes de expirar”, pode propor o praticante para ele mesmo.

Expandir a prática neste caso seria, usando o bom-senso, observar os limites reais da capacidade pulmonar e realizar a ação de superar o padrão respiratório mecânico ou vegetativo, mas sempre com o cuidado de não se violentar. Nesse sentido, cabe lembrar que, com toda a importância que o tapas possa ter ele é, fundamentalmente, uma expressão de ahimsa, a não-violência, que é a regra de ouro e o pilar de todas as práticas do Yoga, dentro ou fora da sala.

O mesmo acontece noutras situações da vida real. Um surfista, naturalmente, começa sua relação com o mar escolhendo ondas não muito fortes, que sejam, digamos assim, “gerenciáveis” pelas suas próprias forças e habilidades. Com o tempo e a repetição vem a experiência. Com a experiência vem a confiança e, junto com ela, a capacidade de investigar e expandir os limites, indo para além daquilo que, por exemplo, o medo pode nos indicar como sendo o tamanho limite de uma ondulação que escolhemos surfar.

Assim, ao completar de maneira bem sucedida uma onda, o surfista pensa: “bom, se não caí nesta, posso escolher outra um pouco maior ou um pouco mais cavada”. Não obstante, se ele se deixar dominar pelo medo, não irá se dar a chance de investigar e expandir aquilo que sua crença limitante possa estar lhe mostrar como sendo o limite.




Ousadia.

Na Antiguidade, Colunas de Hércules era o nome dado aos dois promontórios a ambos os lados do Estreito de Gibraltar, que separavam o então familiar mar Mediterrâneo do ignoto e potencialmente perigoso Oceano Atlântico. Sobre elas, Hércules, o herói grego, hasteou uma bandeira com a frase non plus ultra, que significa “não [ir] mais além”, indicando que aquele era o fim do mundo e que ninguém deveria ousar investigar o que havia depois daquele ponto. O Imperador Carlos V, depois da descoberta do Novo Mundo, colocou no escudo da Espanha uma modificação dessa frase que era um sinal dos tempos novos que haviam começado, bem como da expansão das fronteiras do mundo conhecido: plus ultra, ou “mais além”.

Talvez o surfista possa ultrapassar os limites impostos por seus medos e descobrir possibilidades impensadas dentro do mar. Talvez exista um mundo inteiro para ser descoberto dentro de você mesmo, tendo o tapas como guia e a liberdade como objetivo. É só uma questão de tentar, e estar disposto a crescer através e para além das próprias fraquezas. Boas práticas! Namaste!


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Publicado originalmente na revista Prana Yoga Journal: www.eyoga.com.br

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