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Alguns Yogas - Pedro Kupfer

Por Pedro Kupfer

O Yoga como Yoga

Há muitas formas de definir o Yoga e muitas abordagens que podem ser feitas em relação a ele. Para simplificar, e não cansar o paciente leitor com repetições, digamos apenas que Yoga é uma escola de autoconhecimento, ou o exercício da prática desse conhecimento sobre si mesmo na vida real, através de atitudes e ações conscientes. Desde tempos imemoriais, o Yoga esteve vinculado à busca da liberdade. Por paradoxal que possa ser buscar algo que nós somos (uma vez que o Yoga ensina que aquilo que buscamos é o que de fato já somos), esse é o objetivo, e todo o esforço do praticante está centrado na completude desse processo de crescimento interior.

Nessa ordem de coisas, o Yoga nunca foi um método para manter a saúde ou a boa forma, nem para prosperar ou enriquecer materialmente. O tipo de prosperidade e conforto para o qual o Yoga aponta, certamente, não está centrado na realização de desejos ou na acumulação de bens materiais. A riqueza para a qual o Yoga aponta é de outra índole. A meta é cultivar um estado de pacífica plenitude, independentemente do estado da conta bancária ou da saúde física, que pontue todos os momentos da existência. Esse estado de plenitude é chamado moksha, que quer dizer liberdade, em sânscrito.

Tradicionalmente, as pessoas comprometidas com esse caminho não eram necessariamente as mais ricas ou visíveis dentro da sociedade, embora dentre os adeptos do passado não faltassem figuras como o rei Janaka, um yogi-governante lembrado pela temperança, justiça e generosidade com que reinou. No passado remoto, os yogis preferiam a vida simples, na floresta, nas montanhas, perto dos rios, ou em lugares igualmente recolhidos e tranqüilos. No passado mais recente e no presente, da mesma maneira, percebemos que muitos praticantes escolheram lugares solitários para viver, praticar e ensinar. Um exemplo é o grande erudito Georg Feuerstein, que pouco tempo atrás se recolheu numa cabana nas florestas do Canadá, deixando para trás grandes projetos profissionais e educacionais.



O Yoga como exercício

Originalmente, o Hatha Yoga era um dos métodos ou formas do Yoga, que tinha a peculiaridade de usar o corpo físico como veículo para atingir o estado de liberdade. A prática das posturas, por sua vez, era uma ínfima parte desse método. Com a distorção atual, vemos que essa ínfima parte do Yoga tornou-se sinônimo de Hatha, e que este termo, por sua vez, tornou-se sinônimo de Yoga. No caminho, ficaram para trás técnicas avançadas ou sofisticadas, como mudra, pranayama, mantra e meditação. A falácia de vermos o Yoga desta maneira é que se Yoga é igual a Hatha, e Hatha é igual a ásana, então, Yoga é ásana:

Yoga = Hatha; Hatha = ásana => Yoga = ásana.

Concluir isto seria tão precipitado quanto concluir que se Yoga é um conjunto de técnicas, e que o mula bandha, a contração dos esfíncteres, é uma dessas técnicas, então, qualquer pessoa que contraia os esfíncteres estará praticando Yoga.

Enquanto seja verdade que o Yoga lida com o corpo, a mente e as emoções, seu objetivo maior é a liberdade, moksha. No entanto, a visão reducionista que a sociedade tem do Yoga na atualidade é de que este seria uma espécie de exótica ginástica oriental ou exercício anti-estresse. Essa percepção equivocada é fruto da confusão entre meios e fins em algumas áreas do próprio ambiente dos professores de Yoga. Muitos instrutores desconsideram a visão da vida e o ensinamento sobre si mesmo, julgando serem mera teoria, e acabam se centrando nas técnicas, que passam a ser vistas como objetivos a serem atingidos.

Quando a mídia promove esta confusão, o público recebe a informação de que Yoga é exercício físico para o bem-estar, e mais nada. Com esta distorção na visão dos objetivos, confundem-se ferramentas e metas e o cuidado com o corpo, que sempre foi considerado um veículo para alcançar a meta maior, passa a ser considerado um fim em si mesmo. A responsabilidade, obviamente, fica com os professores que, por opiniões ou ações distorcidas, ou mesmo por omissões (por exemplo, quando um professor diz “eu não me meto nessas coisas”), dão início a esse processo de confundir meios e fins.



“O Yoga da Prosperidade”

Atualmente, para piorar as coisas, há autores da área da auto-ajuda que, às vezes dissimuladamente, às vezes descaradamente, expõem o Yoga como um sistema que ajudaria o praticante a fazer dinheiro. Eufemisticamente, a palavra dinheiro não é empregada. Em seu lugar, entram termos mais neutros, como prosperidade, sucesso, riqueza ou abundância. Ainda, estes ensinamentos aparecem profusa e generosamente pintados com “verniz espiritual”, adornados com citações das Upanishads e outros shastras.

Então, não testemunhamos apenas a redução do Yoga a um exercício físico, mas igualmente percebemos um uso questionável dos seus valores como ferramenta para prosperar. Assim, invertem-se os princípios fundamentais da ética yogika: onde deveria haver desapego, campa a busca da abundância, como se nela estivesse a plenitude. Onde os praticantes deveríamos ser convidados para pensar na simplicidade, propõe-se a busca do hedonismo, como se nele pudéssemos achar a felicidade. Onde deveríamos refletir sobre a nossa verdadeira identidade, nos propõem a realização das ambições como solução para a felicidade. Nessa trilha, alguém ainda vai escrever livros como O Yoga Sutra da Prosperidade, Os Sete Segredos do Yoga, ou Patañjali, o Maior Vendedor do Mundo.

Nada contra a prosperidade, o conforto material, a segurança física, a busca do prazer e as demais extensões dos conceitos de artha e kama, abundância e desejo. Pelo contário: esses dois elementos, que são propósitos humanos válidos (purusharthas), devem ser levados em conta dentro das limitações intrínsecas a eles. Não é daí que virão a felicidade ou a liberdade. Eles devem ser equilibrados com ponderadas doses de esforço em direção ao dharma e a moksha, a harmonia com a lei natural e a liberdade, que são os outros dois propósitos. Como já dissemos acima, o método do Yoga é para atingir moksha, não para se conseguir prosperidade ou satisfação dos desejos.



As alternativas para voltar à origem

A compreensão de que o Yoga seja algo além dessas distorções é a tábua de salvação do praticante sincero. A bem da verdade, o Yoga nunca esteve dirigido ao consumo fácil. Aqueles realmente interessados nos objetivos verdadeiros do Yoga continuam sendo uma pequena minoria dentro do imenso grupo das pessoas que se auto-definem como praticantes. Assim sendo, eles devem superar as provações que a vida lhes colocar, na forma de coisas que parecem Yoga, têm cara de Yoga, cheiro de Yoga, mas não são Yoga.

Tradicionalmente, o Yoga foi ensinado em espaços pequenos, para grupos reduzidos ou até mesmo de forma individual. As mesmas soluções que funcionaram no passado, como ilustra o exemplo do mestre Krishnamacharya, que ensinava num exíguo cômodo da própria casa, continuam funcionando e sendo aplicadas por muitos bons professores até hoje. Provavelmente, essas salas de prática não terão letreiros luminosos à porta. Provavelmente, não são lugares muito visíveis ou fáceis de se achar. Provavelmente, também, os professores que você encontre nesses lugares serão praticantes dedicados que, por estarem em casa, não têm o rabo preso para falar sobre espiritualidade.

Por sua parte, o praticante deve estar disposto a fazer frente a quaisquer dificuldades que possam aparecer no caminho. Dentre elas, podem surgir obstáculos internos como o desalento, a falta de motivação, a inércia ou a dúvida. Os obstáculos externos que o yogi encontra atualmente incluem professores despreparados e materiais de estudo e prática moderninhos e atraentes, mas vazios. Cabe a cada um, usando o bom-senso, evitar cair nessas armadilhas e trilhar pacificamente seu próprio caminho em direção à liberdade. Namaste!



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Publicado originalmente na revista Prana Yoga Journal: www.eyoga.com.br.

Acesse o site:
www.yoga.pro.br

 

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