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Quanta Felicidade? Pedro Kupfer

por Pedro Kupfer

Alguns anos atrás fui para o Dayananda Ashram em Rishikesh, na Índia, para estudar Vedānta com meu mestre. Quando fazemos uma viagem dessas, é desejável levarmos conosco algumas fotografias da nossa família, da nossa casa, e até dos nossos animais de estimação para mostrar às pessoas com quem conversamos. Os indianos são muito curiosos e apresentar um pequeno álbum de fotos é uma ótima maneira de iniciar uma conversa quando vamos conviver por um bom período com colegas de aprendizado.

Numa ocasião, estava mostrando essas fotos para um pequeno grupo de estudantes indianos. Tinha colocado no álbum algumas fotos de surf, uma atividade que pratico com paixão há muitos anos, por aquilo de que uma imagem vale mais do que mil palavras, já que sempre tive dificuldade para explicar o que é surfar para pessoas que vivem longe do mar e nunca viram ondas quebrar numa praia. Um dos jovens que estava olhando para as fotos me perguntou: “Mas, se você faz essas coisas, se mora numa praia tão linda, para que veio aqui estudar Vedānta?”

Percebi que aquele jovem pensava que se você é saudável e faz o que gosta, não precisa de mais nada para ser feliz. Noutras palavras, ele pensava que a felicidade não está conectada com o autoconhecimento, mas depende das ações que a gente faz. Eu sabia perfeitamente que esse não era o caso, pois, apesar de ter praticado ásanas, meditação e surf por décadas a fio, sabia, naquela altura, como sei ainda hoje, que tinha e ainda tenho, um longo caminho pela frente até completar meu processo de crescimento pessoal.

Este jovem, como muita gente, achava que a felicidade deriva de realizar determinadas ações. Essa equivocação é frequente e antiga, como ilustra a Taittriya Upanishad, um antigo texto de Yoga que citaremos mais adiante.Praticar ásanas, surf ou qualquer outra atividade saudável, prazerosa ou construtiva não ilumina ninguém, infelizmente. Digo infelizmente, pois seria muito mais fácil e simples se não precisássemos de autoconhecimento e auto-aperfeiçoamento do caráter para ser felizes e realizar as mais altas aspirações humanas.

Surfistas padecendo no paraíso.

Estou há mais de um mês surfando numa ilha remota da Indonésia, convivendo com um pequeno grupo de surfistas das mais variadas nacionalidades: há aqui africanos, australianos, europeus, americanos e até mesmo alguns nativos. Todos, obviamente, torcemos para que a deusa do mar nos entregue diariamente seus presentes na forma das maravilhosas ondas que quebram nesta bancada de coral. Este lugar é lindo como poucos na Terra: uma longa praia de areia branca pontuada por coqueiros, água turquesa, corais de todas as nuanças e formas, peixes e estrelas do mar de cores inimagináveis, amanheceres e entardeceres de tirar o fôlego. A vida explode em todos os cantos.

Apesar de que o convívio é dos mais harmoniosos, pois o grupo está empenhado em compartilhar as ondas de forma justa e educada, prevalece um ar de frustração no ar em alguns rostos quando as ondulações chegam pequenas ou o vento muito forte. Isso acontece por que esses surfistas têm a convicção de que a felicidade depende das condições do mar: “Se há ondas boas, sou feliz; se não há ondas boas, sou infeliz”, pensam. Aliás, aqueles que se queixam estão mais para sufristas do que para surfistas: sofrem quando as condições não são ótimas, mas continuam se queixando quando o mar sobe.

Assim, cria-se um vórtice de lamúrias em algumas conversações que dizem respeito às condições adversas do vento, as marés, ou a direção das ondulações. Ao invés dessas pessoas aproveitarem com gratidão aquilo que a vida lhes oferece, preferem se queixar ou pensar como seria bom se as condições para a prática do surf fossem diferentes ou mais próximas do ideal que elas têm em mente. Como essa atitude é quase sempre estendida aos demais aspectos da vida, a pessoa que a cultiva fica presa num circulo vicioso de queixas e sofrimento.

Em relação a isso, o filósofo inglês William James escreveu uma vez: “Não tenho nenhuma dúvida de que a maioria das pessoas vive, seja física, intelectual ou moralmente, num círculo deveras restrito do seu ser potencial. Elas usam uma parcela ínfima da sua consciência possível [...] mais ou menos como o homem que adquire o hábito de usar e de mover, de todo seu organismo físico, apenas o dedo mínimo [...]. Todos nós temos reservatórios de vida a serem reaproveitados, com que sequer sonhamos.”

Precisamos mesmo de autoconhecimento?

Essa “parcela ínfima” da consciência potencial, daquilo que poderíamos ser, é a vida condicionada do surfista que se queixa constantemente, sem parar para pensar no privilegio que é poder fazer aquilo que se gosta. O antídoto contra esse tipo de limitação gnosiológica é o autoconhecimento, que é também chamado liberdade. Em sânscrito, liberdade se diz moksha. Por que precisamos de autoconhecimento para sermos livres? Os animais, por exemplo, não têm problemas de auto-imagem nem ficam se questionando sobre se estão fazendo o certo ou o errado, mas, havendo nascido como tais, e considerando as limitações inerentes à mente animal, tampouco podem ter moksha.

Precisamos de autoconhecimento, pois este Ser que cada um de nós é, precisa ser adequadamente conhecido. Uma das diferenças entre o animal e o humano é que este pode sim ter moksha nesta vida. E, para se ter moksha, é preciso ter consciência de que, na criação, nada existe separado do Todo. Essa compreensão é fundamental: cada ser vivo, cada objeto inanimado, deriva sua existência de uma série de outros elementos.

O peixe no oceano depende da bancada de coral, para nela se alimentar e refugiar. O coral, por sua vez, deriva sua existência da presença da água do mar. Mude a temperatura da água, por exemplo, e você terá uma mudança em todas as formas de vida da bancada. O coral é um ser vivo que, para existir, depende da presença não apenas da água, mas também do cálcio, do nitrogênio e os demais minerais e nutrientes a partir dos quais ele constrói suas células. As células coralinas, por sua vez, não existem sem as moléculas. As moléculas dependem dos átomos. O coral sustenta as algas e peixes, e é, por sua vez, sustentado pelos minerais e nutrientes através dos quais ele vive. Quando o coral morre, seus elementos constituintes permanecem, embora a forma do coral se desintegre. Por sua vez, esses elementos irão configurar outras formas de vida.

Compreender a interdependência entre todas as formas de vida, bem como entender que nada existe separado da Totalidade, são fatores fundamentais para a liberdade, pois essa compreensão elimina sentimentos como alienação e solidão, e a ideia de sermos indivíduos desgarrados do Todo. Por sua vez, essa visão integradora produz confiança no indivíduo e, consequentemente, capacidade de entrega à realidade da vida. Viver em plenitude, viver em moksha, então, é compreender essa ligação com a fonte da vida.

Quantificando a felicidade.

Por outro lado, cabe perguntar se de fato sabemos o que estamos buscando: conhecemos mesmo essa felicidade, essa liberdade? Você já se sentiu como se nada estivesse faltando em sua vida? Você já se sentiu plenamente satisfeito? Se formos considerar a felicidade como uma experiência física, emocional ou mental, veremos que ela tem certa duração e, num dado momento, acaba. Porém, acontece que a felicidade não é uma experiência desse tipo. Quanta felicidade um humano pode ter?

Um trecho da Taittriya Upanishad (Brahmanandavalli, 8), afirma o seguinte:“Imagine um homem de bem, jovem, forte, saudável e que possui toda a riqueza do mundo. Tome isso como uma unidade de felicidade humana. Agora, multiplique isso cem vezes. O resultado será a felicidade dosmanushyagandharvas e daqueles que compreenderam [o ensinamento] dos Vedas e destruíram o samskāra. Multiplique isso mais cem vezes e você terá a felicidade dos sábios e daqueles que compreenderam os Vedas e destruíram osamskāra. Multiplique isso cem vezes e terá a felicidade dos karmadevas, aqueles que alcançaram a libertação pelo domínio do karma”.

A primeira parte desta citação da Taittriya diz que, se você faz a coisa certa, se cultivar uma vida cheia de ações “bem sucedidas”, se tiver vigor físico, saúde, riqueza e virtude, certamente irá e ficar alegre e calmo, mas isso não é o suficiente para acabar com os conflitos interiores. A felicidade assim obtida aumenta ou diminui segundo o caso, mas sempre tem um limite a partir do qual seu oposto, a tristeza, começa a se manifestar. É assim com todos os pares de opostos. No movimento do pêndulo, a partir de um dado momento, o que estava subindo começa a descer. Não existe crescimento ilimitado, prosperidade ilimitada, nem força física ilimitada. Expansão e recolhimento são as duas caras dessa moeda: uma não existe sem a outra. O que nasceu cresce, o que cresce morre, o que morre renasce sob outra forma.

A Upanishad continua dizendo, a partir da terceira frase deste parágrafo, que compreender a visão dos Vedas e aplicar esse conhecimento na vida, é o que nos leva adiante e faz a diferença na tarefa da libertação. Nesse sentido, a felicidade aqui mencionada não é uma emoção ou uma experiência, mas aquilo de que nós somos “fabricados”. Perante essa plenitude, as experiências e os frutos das ações aparecem como algo pequeno, mas que não precisamos descartar, já que não podemos viver sem experiências, e sem emoções a vida fica sem graça. Num dia de ondas grandes, há surfistas relaxados e outros que morrem de medo. Aqueles que riem sabem perfeitamente que estão participando de uma brincadeira, e não se furtam de vivê-la. Os que se deixam dominar pelo nervosismo esqueceram que estão num jogo.

Nanda e ānanda.

Para determinar a diferença entre a felicidade limitada que deriva das ações e aquela ilimitada, que sempre existiu, usam-se duas palavras em sânscrito: nanda e ānanda. Nanda é a alegria nascida das atividades que nos proporcionam prazer ou segurança; ānanda é a plenitude que somos. Essa felicidade não faz parte, portanto, de nenhum par de opostos: ela não começa nem acaba, nem depende de nenhum fator para acontecer. Então, para nos livrar da ignorância e o sofrimento que nasce dela, precisamos abandonar a crença de que é necessário viver experiências que irão um dia nos tirar da aflição, já que tudo o que experienciamos, tudo o que vivemos, são manifestações do Ser.

Assim, ānanda não é uma experiência, mas uma maneira de ver a si mesmo. Esta plenitude é a natureza do Ser, ātma, que é a única realidade. Nesse sentido, diz Swami Dayananda: “Dizer ‘eu conheço ātma’ é uma força de expressão. Negando aquilo que eu não sou, a identificação com o papel do fazedor ou o do desfrutador das ações, a ignorância se esvai junto com essa identificação. Isso não envolve novas ações. Dar-se conta não é uma ação. O trabalho do professor é mostrar isso ao estudante. Este não é conhecimento banal. Assim, eu não me vejo mais como um conhecedor, nem sou um objeto que precisa ser conhecido. Me vejo como satchitānanda, realidade, consciência e plenitude. Ponto”.

Swamiji continua: “O conhecedor, o conhecido e o conhecimento são a mesma ordem de realidade, são ātma. Com referência ao conhecimento de ātma, sendo este aparoksha, auto-evidente, não precisa ser revelado ou mostrado por quaisquer outros meios de conhecimento: ātma é Brahman, o Todo. O Ser não “se torna” Brahman depois de remover os pensamentos, como dizem alguns professores. Os pensamentos são Brahman”.

Assim, se quisermos ir mais além da vida limitada àquela “parcela ínfima” do que realmente somos, precisamos aceitar que é desejável nos desvencilharmos da ignorância existencial. Desta maneira, “fecundando” com o autoconhecimento todas as atividades que realizamos, podemos desfrutar intensamente do fato de estarmos vivos, realizando as ações que nos são devidas, e recebendo os frutos delas como verdadeiros presentes que a vida nos dá a cada momento. Sem isso, seremos como os sufristas desta ilha paradisíaca que, como não param de se lamuriar pelo que poderia ser, se privam de desfrutar do que a natureza lhes dá agora. Namaste!

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