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Shankacharya: O Grande Mestre do Advaita Vedanta - Por Swami Dayananda

P.: Swamiji, fale-nos, por favor, alguma coisa de Sankara e seu trabalho.

Swamiji- É dito que Sankara viveu no século oitavo. Esta data é contestada por alguns, que afirmam ter ele vivido há muito mais tempo do que isso. Se é verdade que Buddha data de 500 A.C., então Sankara pode ter vivido no primeiro século A.C., ou no primeiro século D.C., o mais tardar. Essas controvérsias são baseadas nos registros existentes dos mestres que sucederam a Sankara. Por exemplo, em cada um dos quatro centros de ensinamento (Mathas) estabelecidos pelos principais discípulos de Sankara - Suresvara, Padmapada, Hastamalaka e Totaka, há uma longa lista de nomes de todos os acaryas que constituem a linhagem dos mestres na tradição do ensinamento de Vedanta. Se seguirmos essas listas, situaremos Sankara antes de Cristo.
Sankara é considerado um dos grandes mestres da tradição de Advaita (não dual) Vedanta. Pelas referências nos versos dedicados a "Vyasa, Sankara e professores atuais", e pelas palavras "cuja conexão é Sankara", podemos presumir que ele situou-se em algum ponto no meio.

A forma escrita da tradição é disponível somente a partir de Sankara, com exceção de uns poucos textos, pois perderam-se os trabalhos dos mestres mais antigos. Sankara, mesmo, comentou sobre Gaudapadakarica, o trabalho de seu "avô-guru" Gaudapada. Existem também disponíveis outros textos que analisam o trabalho dos Acaryas pré-Sankara. São os comentários de Sankara, entretanto, que formam a base para a tradição do ensinamento conhecido como Vedanta.

O próprio Sankara falou a respeito dessa tradição (Sampradaya) e citou outros mestres. Ele nunca afirmou que estivesse iniciando alguma coisa. Contudo, ele conseguiu apreender o ensinamento em forma escrita num estilo muito agradável e profundo. Podem ter havido outros comentários escritos sobre o ensinamento, mas foram os de Sankara que permaneceram e foram seguidos com grande fé por aqueles que vieram depois dele.

Quem quer que busque com seriedade, mesmo nos dias de hoje, estuda os Bhasyas de Sankara com o auxílio de um professor qualificado, que tenha se submetido ao estudo tradicional. Esse estudo é a busca espiritual tradicional e é como desenvolvemos um claro entendimento do que trata o ensinamento encontrado no Veda ( Sruti ).

Para entendermos a visão da Sruti, precisamos de uma chave, que nos é fornecida pelos Brahmasutras. Porque os Brahmasutras também não podem ser facilmente abertos, precisamos de uma outra chave - e essa chave é Sankara. Assim, temos a chave, os Brahmasutras desdobrados e apresentados por Sankara , de acordo com a tradição, juntamente com seus comentários sobre os versos reais no Veda dos quais esses importantes Sutras tratam. Porque Sankara nos deu ambos, a tradição do ensinamento e o corpo do conhecimento, ele é considerado como sendo um elo muito importante nessa tradição.

Como autor, Sankara seguiu o estilo de Patanjali, também chamado Mahabhasyakara. O Mahabhasya é um comentário sobre a gramática escrita de Panini, escrito por Patanjali no estilo que é muito simples, belo e profundo. Em virtude de Sankara ter seguido o estilo do Mahabhasyakara, tornou-se conhecido como Bhasyakara.

Ao lado de seus Bhasyas e Upadesa Sahasri, muitos dos trabalhos atribuídos a Sankara não são aceitos como tal por pessoas letradas no assunto, porque o estilo difere muito dramaticamente daquele que conhecemos como tendo sido por ele adotado. Estudiosos da tradição, entretanto, tendem a não questionar a autoria de determinado trabalho, mas, ao contrário, considerar apenas o seu conteúdo.

Sankara nasceu em uma vila no sul da Índia. Tornou-se um Sadhu (renunciante), partindo de casa muito jovem. Há muitas estórias a respeito de sua vida, como sempre ocorre em relação a pessoas importantes.

Parece que, como um auto-declarado renunciante, ele partiu para as margens do Rio Narmada, que flui para o oeste na região central da Índia. Às margens do Narmada havia um grande mestre, Govindapada, que tornou-se o guru de Sankara. Após estudar sob sua orientação, Sankara foi para Kashi. Naquele tempo todos os estudiosos iam para Kashi. Lá parcitipou de muitas discussões, comuns naqueles tempos, analisando os Vedas.

Suresvara, que se tornou discípulo de Sankara, foi um grande estudioso no que se refere à primeira parte do Veda (karmakanda), que trata de rituais e como devemos conduzir nossa vida.

O argumento de Suresvara era de que apenas a execução dos rituais levaria à liberação. Sankara provou-lhe as limitações dessa posição empregando o raciocínio e o conhecimento contidos na última parte do Veda, conhecida como as Upanisads.

Suresvara, então, tornou-se o principal discípulo de Sankara e escreveu comentários referentes a seus Bhasyas: Taittiriyopanisadbhasyavartikam e Brhadaranyakopanisadbhasyavartikam, assim como o seu próprio livro Naiskarmyasiddhi.

Padmapada, outro discípulo de Sankara, escreveu um livro, Pancapadika, que é um sub-comentário (Tika) do Bhasya de Sankara sobre os Brahmasutras. Embora os Brahmasutras contenham quatro capítulos, tendo cada capítulo quatro secões, apenas a Tika das quatro seções do primeiro capítulo e a primeira seção do segundo capítulo sobreviveram.

Outro discípulo de Sankara, Hastamalaka, escreveu um conjunto de versos chamado Hastamalakyam. O quarto discípulo, Totaka, escreveu um livro Srutisarasamudharanam, e também Viditakhilasastrasudha, também conhecido como Totakastakam. Esses, então, são os trabalhos que presentemente conhecemos.

De Kashi, parece que Sankara foi para Badrinath nos Himalayas, onde permaneceu por algum tempo. Ele também esteve no Kashmir. Como era o costume naqueles dias, ele viajou a pé por toda a parte, cobrindo o país inteiro por três vezes, assim me foi dito.

A influência budista era muito forte na Índia àquele tempo e, por conseguinte, havia muitas pessoas que não acreditavam no Veda. Mas Sankara foi capaz de mudar o pensamento de reis que tinham caído sobre a influência do Budismo. Naqueles dias, se os reis mudassem o seu pensar, os panditas e os letrados também mudariam. E uma vez mudados os letrados, o povo os seguiria.

Devido ao ensinamento de Sankara, o Veda foi mais uma vez aceito pela maioria da população e a tradição continuou como antes.

O Budismo praticamente desapareceu da Índia devido a Sankara; tudo o que permanece são alguns monumentos. Por ese motivo, Sankara é às vezes apresentado como uma espécie de cruzado contra o Budismo, mas nada há na literatura que ratifique esse ponto de vista. Ele era um professor e seu ensinamento era tão perfeito e completo, que ninguém que veio depois dele encontrou em seu raciocínio qualquer traço falso ou capcioso. É por isso, naturalmente, que ele foi aceito de um modo total pelo povo de seu próprio tempo, assim como por aqueles que a eles se seguiram.

É dito que Sankara morreu aos trinta e poucos anos no norte da Índia, perto de Badrinath. Novamente, há controvérsias acerca da idade em que morreu e o local, alguns afirmando que faleceu em Kanchi, perto de Madras.

Sankara tornou-se o símbolo do próprio conhecimento que ensinou. Por essa razão, antes do início de qualquer aula de Vedanta, nós sempre pensamos nele. Somente então a iniciamos. Sankara não foi o iniciador de Advaita Vedanta, como algumas pessoas sustentam. Ele meramente foi um dos elos dessa antiga tradição de ensino. Não criou nada novo, mas tratou, realmente, de questões contemporâneas do ponto de vista do ensinamento, que fizeram dele um grande mestre.

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