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Textos

A Invocação da Kena Upanishad

por Swami Dayananda Saraswati

Oṃ āpyāyantu mamāṅgāni vākprāṇaśchakṣuḥ
śrotram atho balamindriyāṇi cha sarvāṇi |
sarvaṁ brahmaupaniṣadam |
māhaṁ brahma nirākuryām |
mā mā brahma nirākarot |
anirakāraṇa mastvanirākaraṇaṁ me astu |
tadātmani nirate ya upaniṣatsu dharmāḥ te mayi santu |
te mayi santu || oṃ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||

Que as partes [do meu corpo], como a fala, os olhos e os ouvidos, a força e todos os demais órgãos sejam eficientes. Tudo é Brahman: [revelam] as Upaniṣads. Que eu não rejeite Brahman. Que Brahman não me rejeite. Que não haja rejeição de Brahman da minha parte. Que não haja rejeição de mim por Brahman. Que todos os valores e atitudes mencionados nas Upaniṣads estejam comigo. Estou comprometido na busca do conhecimento de Brahman. Que os valores e atitudes vivam em mim. Oṃ. Paz. Paz. Paz.

Comentários de Swami Dayananda.

Este é o mantra que abre a kena Upaniṣad. Cada Upaniṣad tem uma invocação inicial. Geralmente, a prece das Upaniṣads que estão associadas a um determinado Veda é a mesma para todas elas, bem como para aquele determinado Veda. Estando a kena Upaniṣad associada ao Sāma Veda, ela terá a mesma invocação que das demais Upaniṣads desse Veda.


Similarmente, a invocação para todas as Upaniṣads que pertencem ao Kṛṣṇa Yajur Veda, o Yajur Veda "Negro", é a famosa fórmula saha nāvavatu, embora a Taittirīya Upaniṣad tenha um cântico separado, que começa com o verso śano mitraśśaṁ varuṇaḥ. Para o Śukla Yajur Veda, o Yajur Veda "Branco", temos o pūrṇam adaḥ pūrṇam idam. A Īśā e a Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, por exemplo, começam com esse mantra.

Para as Upaniṣads associadas com o Ṛg Veda, há o mantra vān me manasi pratiṣṭhitā mano me vāchi. A Aitareya Upaniṣad, por exemplo, pertence a esse grupo. Tem várias Upaniṣads no Atharva Veda, como a Muṇḍaka, a Māṇḍūkya e outras, que começam com o verso bhadram karṇebhiḥ śṛṇuyāma devaḥ. No início de uma determinada aula, o professor irá repetir o mantra invocatório correspondente, junto com seus alunos, em forma de pergunta e resposta, ou todos juntos. Aqui, a kena Upaniṣad começa com o mantra āpyāyantu mamāṅgāni vākprāṇaśchakṣuḥ.

Āpyāyantu mamāṅgāni vākprāṇaśchakṣuḥ: que todos meus membros cresçam e ganhem força. Que possam fazer o trabalho que lhes corresponda. A palavra aṅga aqui não se refere apenas aos membros como braços ou pernas, mas a todas as funções que me permitem existir, perceber, e me expressar no mundo: os cinco elementos constituintes do corpo material, os cinco elementos sutis, os cinco órgãos de ação, os cinco órgãos de percepção, os cinco ares vitais ou vāyus, a mente, o ego e o intelecto. Igualmente, esses aṅgas incluem ainda a saúde fisiológica, a digestão, a eliminação, a respiração, a longevidade, a boa disposição, a memória e demais aspectos que me permitem viver.

Estes aṅgas são usados para viver a vida, em que estou sempre procurando descobrir a felicidade em algum lugar. A prece diz que eu tenha saúde para mokṣa, para chegar no meu professor, no lugar onde este conhecimento estiver disponível, que tenha força e resistência física, memória, longevidade, eloquência e todos os órgãos de percepção e de ação em bom funcionamento, para poder completar este processo de autoconhecimento que conclui em mokṣa.

Sarvaṁ brahmaupaniṣadam: "Tudo o que está aqui é Brahman, [revelam] as Upaniṣads". Brahman é o ilimitado, maior que o maior, incomensurável. Brahman é a causa de tudo. Nada há, nada existe separado de Brahman. Aquilo que eu conheço é Brahman. Aquilo que desconheco é Brahman também.

O visto e o não visto são Brahman. Porém, Brahman não termina não que é visto ou não que não é visto. Brahman não é limitado por nada nem ninguém. As Upaniṣads revelam Brahman. Brahman não pode ser visto ou encontrado por acidente em algum lugar. Não há choque, doença, fungo ou bactéria que possa revelar Brahman.

Brahman só é revelado pelo śāstra, pelas Upaniṣads. Você não vai se esbarrar com Brahman andando pela rua, ou numa caverna, sentado em meditação. Brahman não se esconde em lugar algum. Brahman é todos os lugares. Brahman é todos os tempos. Brahman é todos os objetos que existem no tempo e no espaço.

Você não precisa transcender nada para encontrar Brahman. Não precisa renunciar a nada, não precisa ir para algum lugar. Brahman é o que é, agora, neste lugar. Que eu possa me manter ciente desse Brahman. Que tenha saúde e vigor para vivem em consciência de Brahman.

Māhaṁ brahma nirākuryām: "Que eu não rejeite Brahman". Que eu possa me dar conta que todo dia é dia de Brahman, que todo momento é momento de Brahman, de viver ciente de Brahman. Que minha prioridade seja a consciência de Brahman.

Mā mā brahma nirākarot: "Que Brahman não me rejeite". Que eu possa olhar para mim mesmo como alguém digno do conhecimento de Brahman. Que eu tenha essa graça. Que Brahman me abençoe. Que não haja indiferença em relação à minha busca.

Onde estiver envolvida a busca do conhecimento, haverá, necessariamente, adhikāritvam, uma qualificação necessária para que o conhecimento tenha lugar. Sem isso não há mokṣa possível. Para pessoas que vivem no mundo, como nós, o sandhya vandanam é necessário para adquirir essa preparação.

O sandhya vandanam consiste em verbalizar uma série de mantras (que inclui o Gāyatrī), reflexões e meditações que se fazem três vezes ao dia, e que potencializam e tornam o espaço interior conduzente para o conhecimento. Esta prática facilita, então, a compreensão do conhecimento que nos conduz a Brahman.

Quais são, especificamente, essas qualificações? As próprias Upaniṣads mencionam um número de valores e atitudes, às quais se refere esta invocação quando diz dharmāste mayi santu, te mayi santu: "Que os valores e atitudes vivam em mim".


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Transcrito das aulas ministradas por Pujya Swamiji num retiro na cidade sagrada de Rishikesh, Índia, em março de 2011. Tradução de Pedro Kupfer.

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