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Mauna, o Silêncio - Mario Tourita

por Mario Tourita

O silêncio é uma das práticas mais profundas que encontrei no Yoga. Para muitas pessoas, silêncio é apenas calar a boca, ou não produzir sons. Diz-se comumente "vamos fazer silêncio", mas como fazer uma coisa que não se pode fazer?

A começar pela matéria da qual os nossos corpos são compostos, cabe lembrar que, ao nível atómico, nada pára. Se houver movimento, não pode haver silêncio. Nós não podemos achar que pelo fato de não ouvir, já encontramos o silêncio.

Se assim fosse, os surdos viveriam na bem-aventurada plenitude silenciosa. Porém, acontece que isso não é verdade: eles sentem os sons com o tato, através do corpo, e tem percepções muito sutis dos sons.

Um dia, conversando com uma amiga surdo-muda, perguntava-lhe como era estar sempre no silêncio. Achava eu que deveria ser por um lado assustador e por outro maravilhoso mas, para a minha surpresa, ela me perguntou: "que silêncio?"

Dizia que os seus pensamentos faziam tanto ruído na sua cabeça que nunca se sentia em silêncio. Apenas não ouvia os sons externos e internos do corpo como nós, mas sentia-os de outra forma, além d ter que cnviver com o barulho constante da própria mente.

Dessa situação concluí que o silêncio não é apenas a privação do som mas algo a mais. Então, será possível o silêncio na mente? Podemos fazer a experiência de colocar uma pessoa num ambiente completamente isolado do exterior durante uma hora e ver o que acontece.

Nos primeiros minutos o único som que ouve é a respiração, mas passados uns 15 a 20 minutos é possível começar a ouvir o sangue a correr nas artérias, e variando de pessoa para pessoa, ao fim de poucos minutos é possível que o ruído da sua mente seja tão alto que nem a respiração ela consiga escutar.

Então a contemplação do silêncio é mais uma questão de onde coloco o meu foco. Se direcionar a minha atenção para o exterior, considerando o corpo como exterior, encontro sempre alguma manifestação da vida e, nela, há sempre vibração, som.

Em relação à palavra escutar, na minha percepção, é que o silêncio começa a fazer sentido. Ninguém faz silêncio. O que podemos fazer é escutar/observar e não tentar atenuar ou ignorar o borbulhar constante da natureza.

O silêncio deixou de ser “feito” desde do início. Diz o Génesis que "no início era o Verbo". O som faz parte da arquitectura do universo. Tudo é vibração: o pilar da matéria é o som.

Isso comprova-se através de experiências da física: existe uma correlação entre estruturas materiais e sons, como bem sabemos. A medicina usa-se de ultra-sons para quebrar cálculos alojados no corpo humano, por exemplo.

Na prática do Yoga, o silêncio está relacionado com a consciência de sermos a testemunha que observa, que está sempre presente por de "trás" de toda atividade. Mesmo havendo som, o silêncio serve de suporte "invisível".

Nunca fiz uma prática prolongada de mauna, jejum verbal, mas lembro que durante um retiro de Yoga que fiz em Itália uns anos atrás, ele era observado durante o desjejum, depois da meditação matinal.

Essas refeições foram as mais preceptivas que tive na vida, o sabor do alimento era muito mais intenso. Desde aquele momento, sempre procurei estar em silêncio quando faço refeições.

Outro aspecto que tem alguma relevância para mim em relação à prática de mauna, é poder olhar para as outras pessoas e vê-las de uma forma mais real: tenho a sensação que as pessoas são mais sinceras caladas do que quando falam.

A linguagem corporal diz mais da pessoa do que ela própria possa imaginar. E não é raro que alguém habituado a falar demais, fique sem jeito, sem saber o que fazer, até gestos involuntários vem para o exterior, quando é proposto mauna.

Gosto do silêncio, por ser quase sempre revelador de mim mesmo, mesmo que as sensações não sejam boas. Para terminar, gostaria de partilhar a história dos yogis da caverna.

Há muito, muito tempo, viviam em estado profundo de meditação três yogis numa caverna dos Himalayas. Alimentando-se apenas de prana, tinham ficado em silêncio por cerca de três anos, até que certo dia surgiu um ruído na entrada da caverna.

Um mês e meio depois um dos yogis, rompendo o silêncio, disse: "Acho que passou uma vaca pela entrada da caverna". O silêncio retornou. Dois meses depois, um segundo yogi disse: "Acho que era uma cabra".

O silêncio reinou novamente. Seis meses depois o terceiro, interrompendo sua prática, diz: "Ou vocês dois calam imediatamente, ou eu vou embora”.

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