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Moksha e o Apego ao Corpo

por Patricia de Abreu

Na atual onda de popularidade que o Yoga está vivendo, constatamos com facilidade que uma grande ênfase é dada à prática dos āsanas, em detrimento do real objetivo, que é mokṣa a liberdade. Āsanas são os exercícios do Yoga: posturas instigantes e desafiadoras que vitalizam, dão flexibilidade e fortalecem todo o corpo, além de movimentarem de forma intensa e variada o fluxo de energia, preparando a estrutura para o despertar da energia potencial. São definidos por Patañjali como “firmes e agradáveis”, sthirasukham.

O Yoga Sūtra, II:47 diz que “a posição é dominada quando se elimina a tensão e se medita no infinito”. Segundo Pedro Kupfer no Dicionário de Yoga, “É através deles que o praticante faz do corpo um instrumento para o crescimento pessoal”. Mas o crescimento muitas vezes é deixado de lado e o cuidado com o corpo acaba se tornando um fim em si mesmo. Pedro complementa ainda: “é preciso ter muita consciência e saber exatamente o que se busca ao fazer āsana, e para que se pratica. Se não for assim, corre-se o risco de que o ego cresça em proporção direta ao aumento da flexibilidade”.

Mas essa consciência parece ter sido esquecida e o que vemos é um apego demasiado ao corpo. Mokṣa então torna-se impossível, já que os valores são deixados de lado. Segundo o Dicionário Houaiss, a palavra apego significa “dedicação constante e excessiva a algo”, nesse caso ao corpo, e se existe um apego demasiado ao corpo um dos yamas do Yoga clássico não está sendo considerado, aparigraha, a não possessividade, que também é traduzida por desapego e que se não levada a sério nos tira da sintonia necessária para praticar.

Parigraha é ambição, é apego. Será que ter – nesse caso, um corpo perfeito – é ser? Para o praticante apegado se o corpo não for perfeito ele não consegue ser feliz e apenas experimenta a felicidade em momentos da valorização do corpo, mas essa experiência se perde, pois é momentânea e passageira.
Vyāsa, comentarista do Yoga Sūtra, em comentário ao aforismo II:38 diz que aparigraha significa “desistir de cobiçar, considerando que a cobiça e o acúmulo causam problemas, que as coisas estão sujeitas à decadência e que a associação com elas causa desconfiança e rancor”.

A Enciclopédia de Yoga de Georg Feuerstein indica que a palavra corpo, em sânscrito, se diz sharīra, que vem do radical shri, “desintegrar-se”, ou seja, “aquilo que decai”. Então por que o apego a algo que irá inevitavelmente desintegrar-se? Vaidade?

Sim, apego ao corpo aponta vaidade excessiva, outro fator que impede o praticante de caminhar em busca da liberdade. Mas, igualmente, há o medo da morte, e a identificação com o corpomente, que faz com que pensemos que, na hora da morte do corpo, o Ser que somos também deixa de existir. Isso é chamado avidyā, ignorância existencial.

Amanitvam é ausência de vaidade, um valor, uma qualidade da mente que é importante estar presente para o conhecimento do Ser, lembrando que é um valor a ser reconhecido e não forçado. Segundo Swāmi Dayānanda no livro O Valor dos Valores, “Amanitvam vem da palavra Sânscrita manah, que significa auto-respeito, auto-estima, estendendo-se a vaidade e arrogância”.

Logo, se existe apego confirmamos então que é decorrente a vaidade exagerada. Swāmijī complementa, “não quer dizer que a pessoa seja sem qualificações, mas quaisquer qualificações que a pessoa tenha aparecem amplificadas com exagero em sua mente como merecedores de respeito e valorização dos outros”.

Quando esse indivíduo não é elogiado ou reconhecido acaba sofrendo e esse sofrimento o distancia de sua verdadeira natureza, o que muitas vezes o deixa ainda mais apegado e obsessivo em relação aos resultados de sua prática, este passa então a praticar mais, no sentido de fazer mais āsanas, e assim forma-se um ciclo vicioso, um condicionamento que muitas vezes pode levar a uma lesão.

O indivíduo que cultua o corpo, julga a si mesmo de forma errada e com base em um estado momentâneo da mente. Swāmi Dayānanda diz no livro Liberdade: “o estado vigente da mente pode ser de tristeza, depressão, frustração, arrependimento, desapontamento ou simplesmente reação a um fracasso. Na medida em que você se julga a partir de um estado da mente, você é um samsārī (o que está enredado no mundo relativo de começos e términos)”.

Assim caminhando contra a libertação, indo em outra direção que não seja a do Yoga. A mente que está preparada para o autoconhecimento deve estar relaxada, deve haver esse valor básico que é amanitvam, o Yoga não é para o corpo, o nível de flexibilidade ou força não indica que você é um praticante avançado.

Swāmijī afirma ainda: “quando você se recusa a se julgar pelo estado da sua mente, você é um mumukṣu (o que busca a liberdade de toda aparente limitação)” Quando há compreensão, desapego e valores reconhecidos você para de se julgar, de se identificar com o corpo e então você está livre!

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