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Textos

Um Olhar Diferente sobre a Religião

por Pedro Kupfer

Este texto nasceu inspirado num retiro guiado por Swāmi Dayānanda em março de 2011 na cidade sagrada de Rishikesh, às margens do rio Ganges. O tema desse encontro foi o diálogo entre Yājñavalkya e Maitreyī, da Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad. Embora o assunto religião não seja explicitamente mencionado nesse texto, Swāmijī o trouxe como reflexão durante o retiro, dada sua capital relevância nos dias atuais.

A visão que ele nos transmitiu pareceu-me inovadora, pois dava vigor e um "novo" significado a uma palavra velha, gasta e que perdeu seu sentido original. Assim, quis compartilhar com os amigos leitores essa "descoberta". Para maior clareza nessa exposição, o presente artigo é costurado por algumas citações das aulas de Swāmijī durante esse ciclo de palestras.

Bauls: anarquia e religião.

Os Bauls da Bengala são um grupo de yogis tántricos errantes, músicos e místicos subversivos que têm vagueado incessantemente pelas estradas desse estado oriental da Índia durante os últimos 500 anos. Eles alegram o povo com suas cancões devocionais e estimulam nas pessoas o questionamento filosófico com seus poemas, carregados de ensinamentos metafísicos. Ao longo dos séculos, têm se recusado a aceitar as convenções sociais e religiosas da região onde vivem, ficando igualmente à margem do sistema de castas.

O Baul mais conhecido internacionalmente é Paban Das, que já gravou com grandes nomes da música contemporânea indiana como State of Bengal e teve até um disco produzido por Peter Gabriel. Não obstante a fama adquirida, ele não mudou de estilo de vida e frequentemente participa dos encontros anuais dessa comunidade, durante o festival anual de Makar Sankranti, que acontece à beira do rio Ajoy, na Bengala Ocidental.

Os Bauls tocam instrumentos como o ektara, cordófone feito com um côco, uma vara de bambu e uma corda de aço, o dotar, pequeno sarod de quatro cordas, um tipo de pandeiro simples chamado dubki e o tambor khomok, ambos feitos de couro de lagarto. Andam vestidos com longas túnicas feitas de retalhos, chamadas alkhallas, vivem de esmolas e têm, não surpreendentemente, má fama entre as populações urbanas da Bengala.

Subversivos, anarquistas, por vezes mostrando uma conduta selvagem ou altamente excêntrica, os Bauls preservam uma série de ensinamentos espirituais que vão desde o ascetismo ao prāṇāyāma, desde a devoção às práticas de sublimação da energia sexual. Eles mantêm um belo e enorme acervo de cancões, algumas melancólicas, outras alegres, que transmitem esse corpo de conhecimento de cada geração para a seguinte.

Vivem em peregrinação, de templo em templo e de mesquita em mesquita, mostrando devoção, especialmente por Kṛṣṇa e Rāma, e sendo curiosamente sincréticos em seus ensinamentos, já que não bebem apenas nas fontes de conhecimento do hinduísmo, mas também no sufismo, fonte do conhecimento esotérico islâmico. Olhando desde fora para este grupo de místicos, é fácil se equivocar ao julgá-los: seriam eles religiosos?

Seus poemas são carregados de uma rara combinação de espiritualidade e ceticismo que remete à filosofia de Charvaka, o primeiro pensador cético-materialista da história, que viveu na Índia no século VI a.C., bem como a certas formas de agnosticismo que já aparecem no Ṛg Veda. Nesta obra há passagens curiosas, como este hino, em que um ṛṣi se questiona:

"Quem realmente sabe? Quem irá proclamar seu conhecimento? Donde ele surgiu? Como foi criado? Como surgiu a criação? Talvez tenha nascido espontaneamente, talvez não. Aquele que observa desde o mais elevado céu é o único que conhece. Ou talvez não."

Assim, esta forma de espiritualidade tántrica encontra suas raízes numa tradição agnóstica não muito conhecida dos praticantes de Yoga da atualidade, mas que permeneceu viva desde a idade védica. Os Bauls acreditam que Deus não está numa mūrti, num templo ou num lugar sagrado, nem no paraíso nem no que há depois da morte, mas no momento presente, no corpo do próprio ser humano que busca a verdade.

O objetivo deles é descobrir um tesouro interno, chamado o Homem de Ouro, ou o Homem do Coração, Moner Manush. Este tesouro está no coração de todos, esperando para ser revelado. Assim, a medida deles é o ser humano, e não os deuses ou um Deus. Repetimos então a pergunta: os Bauls são religiosos ou não? Para responder adequadamente, deveriamos definir, primeiramente, a palavra religião.

Religare: recolocar junto.

O New Oxford American Dictionary define a palavra religião como "a crença em e adoração de um poder controlador sobrehumano, especialmente um Deus ou deuses", ou ainda como "um sistema particular de fé e adoração". A esta breve explanação, podemos acrescentar que as religiões têm, via de regra, um líder, um fundador ou profeta, um salvador, um dogma inquestionável, um livro sagrado, uma hierarquia e a promessa de dias melhores, na forma de algum tipo de paraíso que aguardaria o fiel mais além da vida.

Hoje em dia, quando religiões monoteístas como o cristianismo ou o judaísmo foram despossuídas da enorme influência e poder que ostentavam no passado, e quando o povo e as próprias instituições tanto sofreram com os abusos de poder perpetrados por alguns líderes, a palavra religião nos parece ultrapassada e obscurantista. Ela é, às vezes, usada para definir algo retrógrado ou notadamente ruim, como quando dizemos que o hiperconsumo é a religião dos tempos modernos, ou que o dinheiro é o novo deus.

Talvez seja hora de reavaliar a visão negativa que temos deste termo. Voltando à origem da palavra, religare, em latim, vemos que ela tem a connotação de reatar, recolocar junto coisas que estavam unidas e foram separadas. Na Roma antiga, os devotos atavam fitas ou barbantes coloridos nos altares dos templos, como é feito até hoje em alguns lugares da Índia. A palavra parece ter derivado desse costume.

Etimologicamente falando, portanto, ela não é muito diferente da palavra Yoga que, como o amigo leitor bem sabe, significa unir, dentre outras coisas. Em sânscrito não temos uma palavra para dizer religião. A que mais se aproxima é dharma, que também tem uma origem similar. Deriva de dhr, que significa manter atado, ou manter unido. Aliás, para designar a religião conhecida no Ocidente como hinduísmo, em sânscrito, usamos a expressão sanatana dharma, que significa dharma eterno, aquele que não muda.

Qual é a visão que o Vedānta sobre a religião? Swāmi Dayānanda ensina que "a apreciação, a consciência de mim mesmo como um indivíduo que se relaciona com o Todo é o que chamamos de religião. Uma religião é uma relação com a causa, com a origem do Todo".

Aqui vemos que há uma total identidade entre as palavras de Swāmijī e o significado original de palavra religião: unir aquilo que foi separado, por causa da ignorância existencial. Vejamos agora o que significam as palavras indivíduo e Todo na visão do Vedānta.

A árvore e a floresta, o indivíduo e o Todo.

A totalidade que é a floresta inclui as individualidades que são as árvores. Cada árvore está relacionada de maneira diferente com as demais. Todas são interdependentes e se relacionam de maneira única com a totalidade que a floresta é. O indivíduo e a totalidade estão intrinsecamente conectados, já que são da mesma natureza. Essa totalidade é chamada Īśvara.

Cada individualidade contribui para o todo, da mesma forma que cada árvore faz parte da floresta. Cada indivíduo é um contribuidor para a ordem, enquanto pai, mãe, irmão, amigo, etc. A inteligência de Īśvara está em todos e nos torna associados dele na criação.

Cada papel representado no mundo ou na sociedade é relevante e contribui de alguma maneira, por insignificante que possa parecer, para a harmonia do Todo. Ficando cientes disso, eliminamos o senso de separação entre Īśvara e o que somos em termos de corpomente.

Isso nos ajuda a superar não apenas aquele sentimento de sermos a vítima ou a sensação de separação, mas igualmente outros sentimentos indesejáveis, como a exigência de elogio, a falta de humildade, a necessidade de aprovação por parte dos demais, e outras.

Dharma

O dharma básico é a constatação de que, se nós não queremos ser feridos, não devemos ferir os demais. Para evitar nos colocar em situações indesejáveis, devemos os ater aos valores universais, como este da não-violência, ahiṁsā. O mesmo que queremos para nós, devemos querer para outrem. Se temos claro que não queremos ser feridos ou mortos, devemos estender esse mesmo sentimento a todos os demais, sejam humanos ou não.

Estar em concordância com esses valores universais é se colocar em harmonia com Īśvara. Todos os yamas e niyamas, todos os códigos de conduta em todas as culturas e religiões partem da mesma base. Qualquer valor destes têm a mesma intenção: nos ajudar a usar o livre arbítrio da melhor maneira.

Compreendendo Īśvara.

Swāmijī continua a explanação: "Há algumas confusões em relação à Īśvara, a Deus. Cada pessoa tem uma ideia diferente sobre o que seja Deus. Por isso, preferimos usar a palavra Īśvara, que é mais neutra. Já que a palavra Deus significa coisas diferentes para pessoas diferentes, precisamos usar outra palavra para apontar para o todo".

Quando Īśvara é bem compreendido, uma vez que compreendemos o nosso papel na ordem, uma vez que temos claras nossas funções na harmonia coletiva, ficamos tranquilos, representando calmamente nossos papéis. Uma mãe educando os filhos, por exemplo, é uma pessoa que se vincula com Īśvara através do amor com que os educa. Essa ocupação não é um emprego, não é um trabalho mecânico. É algo que precisa ser feito, que deve ser feito, de acordo com o dharma materno.

Essa questão dos diferentes papéis que representamos na ordem das coisas é muito dinâmica e flexível. Ela é o resultado das ações que realizamos anteriormente, e que nos levaram através do uso do livre arbítrio às situações que vivemos atualmente. Dentro dessa ordem podemos exercer a nossa liberdade das maneiras mais diversas.

Existe só um Deus?

Swāmi Dayānanda diz ainda que "quando clérigos de algumas religiões dizem "só há um Deus. Não adore outros deuses", estão caindo numa grande contradição. Nós não dizemos que só há um Deus. Dizemos que só há Deus, que tudo o que existe é Deus". Assim, precisamos ter uma compreensão crítica da nossa postura em relação a Īśvara, para ver claramente quais são os obstáculos que nos impedem viver em consciência dele.

Não há separação entre jīva e Īśvara. A alienação não existe, assim como não existe distância entre a árvore e a floresta. Algumas pessoas se sentem desamparadas e ficam se lamuriando, "porque eu? porque eu?", por conta desse sentimento de separação nascido do senso de individualidade. Nessa ordem de coisas, a ignorância sobre a própria identidade enquanto Īśvara deve ser corretamente estabelecida para eliminar estes sentimentos frustrantes.

Práticas para cultivar a humildade.

Para lidar com esses sentimentos, em muitas culturas e religiões existem fórmulas como o namaḥ, a entrega, que têm como objetivo eliminar essa distância aparente entre o indivíduo e o Todo. No islamismo, a palavra usada para dizer prostração, o gesto ritual que os devotos fazem cinco vezes ao dia, é justamente namaz, que tem a mesma raíz que namaḥ em sânscrito, além de significar exatamente o mesmo.

O gesto de reverência feito nas mesquitas é muito similar aos movimentos da saudação ao sol do Yoga, sūrya namaskāra, bem como às práticas de prostração do budismo tibetano. Em todos esses contextos, o fato de colocar a testa no chão aponta para aquilo que o professor Hermógenes definiu uma vez como prática de humildação, ou submeter o orgulho do ego a Īśvara.

Um dos modelos usados ao longo do tempo para explicar isto diz que os cinco elementos da natureza, espaço, ar, fogo, água e terra constituem o corpomente. Esses elementos, por sua vez, são o corpo de Īśvara. Isto nos ajuda a compreender que não há distância entre Īśvara e nosso corpomente.

Os truques da mente e seu antídoto: a consciência de Īśvara.

Paradoxalmente, precisamos ainda compreender que o senso de separação também faz parte do jogo, da ordem que é Īśvara. Toda emoção, assim, é parte integral da ordem de Īśvara: medo, tristeza, raiva, senso de separação. Não há nada de errado em relação a estas emoções. Elas também são Īśvara. As "boas" qualidades, as desejáveis, que nos lembram da pessoa plena que somos, também são parte integral da ordem de Īśvara, em termos psicológicos.

Swāmijī diz a este respeito: "Īśvara é o superterapeuta que precisamos acessar para eliminar o sentimento de separação em relação ao todo. Īśvara não condena, Īśvara não julga. Īśvara é conhecimento. Todo tipo de conhecimento é Īśvara. Conhecer Īśvara, portanto, resolve este tipo de problema. Compreendendo a ordem piscológica de Īśvara, ficamos em paz".

"Devoção agnóstica" é religião?

Afinal, os Bauls são ou não religiosos? Ano passado tive a oportunidade de assistir o grupo de Paban Das Baul tocando e cantando num festival devocional ao ar livre, na cidade de New Delhi. Tocou-me especialmente a atitude de entrega, quase abandono, com que os músicos tocavam e cantavam. Aquilo era bhakti, devoção, na sua expressão mais pura!

Como não compreendo bangoli, a língua em que eles cantam, não entendi na ocasião o significado daquilo que estava sendo cantado. Porém, lendo posteriormente os poemas no livro de Deben Battacharya The Path of the Mystic Lover: Baul Songs of Passion and Ecstasy, é fácil compreender que eles colocam questionamentos que não se encaixam, de maneira alguma, com aquela definição mais estreita de religião. Reza uma composição de Debdas:

"Quem sabe se os deuses existem?

Você pode encontrá-los no céu?

Ou no Himalaia? Ou na terra, ou no ar?

Deus não pode ser encontrado em nenhum lugar

Senão o coração do buscador da Verdade!"

Porém, desde a definição mais ampla e menos convencional de religião que demos acima, acredito que tanto os Bauls da Bengala como os yogis e estudantes de Vedānta, sejam sim pessoas religiosas. A esse respeito, Swāmi Dayānanda disse: "Todo vedantin é uma pessoa religiosa, mas nem toda pessoa religiosa será necesariamente um vedantin".

नमस्ते Namaste!

Publicado originalmente nos Cadernos de Yoga: www.cadernosdeyoga.com.br

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