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Acupuntura: Entre a Eficácia da Ciência e o Perigo do Misticismo

Trinta minutos com agulhas espetadas pelo corpo. Aos olhos ocidentais, uma sessão de acupuntura pode parecer algo difícil de ser encarado. Mas, afora o medo da dor e a aflição de ver aqueles metais incrustados na pele, é inegável o crescimento do número de pessoas que buscam nesse tipo de tratamento a solução para os mais diversos problemas de saúde. Tão comum quanto as novas clínicas que proliferam pelo país prometendo milagres com a tradicional terapia chinesa e fazem com que os pacientes tenham atenção redobrada antes de se entregarem às agulhas. A acupuntura é uma técnica que auxilia no alívio à dor e na cura de lesões não-contínuas, mas tem limitações quando o assunto é o tratamento de doenças mais graves.

É provável que a acupuntura tenha surgido com a percepção de que o toque em determinadas partes do corpo, de forma instintiva, causava alívio em regiões doloridas. É o caso, por exemplo, de levar as mãos às têmporas quando se sente dor de cabeça. Ao longo de cinco mil anos, os chineses descobriram outros mil pontos de punção, e incorporaram à terapia o uso de agulhas que, inseridas na pele, proporcionavam o efeito desejado. A técnica difundiu-se pelo oriente, em países como Japão, Coréia e Vietnã, e hoje conquista cada vez mais adeptos também deste lado do planeta.

Por milênios, a acupuntura evoluiu baseada no suposto fator energético de seu princípio. Dos mil pontos identificados, 365 foram divididos em 14 grupos principais. Os pontos de um mesmo grupo são ligados por uma linha imaginária na superfície do corpo, mais conhecida como meridiano. Foram descritos doze meridianos principais, que controlam o pulmão, o coração, os intestinos grosso e delgado, o baço, a bexiga, além do estômago, da vesícula, do fígado e do chamado “triplo-aquecedor” (os três centros de energia do corpo: superior, médio e inferior). Além deles, dois meridianos centrais atravessam o corpo na parte frontal e pelas costas. De acordo com a medicina tradicional chinesa, as doenças seriam distúrbios na circulação da energia do corpo (Chi), que passa por essas linhas.

Somente na década de 50, a mística começou a ceder espaço para a ciência. É nos anos 70 que surgem as primeiras explicações científicas para os efeitos da acupuntura, quando se descobriu que a aplicação das agulhas aumenta o nível de endorfina no cérebro, substância ligada ao bem-estar e ao prazer. Hoje, sabe-se que, além da endorfina, outras substâncias (neurotransmissores) são produzidas pelo organismo quando os pontos são ativados. São essas substâncias que geram não só o efeito analgésico, mas também antiinflamatório, relaxante muscular, cicatrizante e antidepressivo leve.

“Essas substâncias são naturais e não causam disfunções no organismo. É diferente, por exemplo, do corticóide que as pessoas tomam por via oral”, diz Hong Jin Pai, chefe da equipe de acupuntura do Centro de Dor do Hospital das Clínicas e professor do Curso de Especialização em Acupuntura na Faculdade de Medicina da USP. “Com os conhecimentos científicos que temos hoje, é possível assegurar que a acupuntura é uma boa terapia, se aplicada por um médico preparado. Os efeitos colaterais são insignificantes”, completa.

Para tamanha segurança, é preciso levar em conta que a acupuntura não é uma terapia independente da medicina convencional. É imprescindível que o paciente realize os exames necessários para que se diagnostique a doença com precisão. No caso de doenças graves, como artrite e câncer, a acupuntura é eficiente apenas para o tratamento dos sintomas, como dores e o efeito colateral de medicamentos. Se aplicada sem orientação médica, o paciente pode muitas vezes sentir-se curado ao cessar a dor, quando na verdade o efeito é somente paliativo e a doença está sendo mascarada.

Crítico das promessas miraculosas e das concepções místicas de muitos profissionais da área, Hong Jin Pai enfatiza a necessidade de uma formação científica e médica sólida para os acupunturistas. Segundo ele, o grande problema são os técnicos de acupuntura que, habilitados em cursos de curta duração e sem formação médica, abrem suas clínicas e anunciam curas milagrosas com a terapia.

Muitos são profissionais de outras áreas que, por estarem desempregados ou ganhando pouco, fazem da acupuntura um meio de complementar a renda. “Se o médico que estudou seis anos de medicina, fez quatro anos de residência médica e dois anos de especialização em acupuntura não sabe muito sobre medicina, como é que aqueles que não sabem nada de medicina e fizeram um curso qualquer de acupuntura querem ter a mesma competência dos médicos?”, pergunta Jin Pai.

Para ele, o médico acupunturista deve recuperar o espírito do clínico geral, aquele que tem amplo conhecimento em medicina, além de sua área de especialização. Mais: deve estar em contínua atualização, para que não haja erros tanto no diagnóstico quanto na aplicação da técnica adequada.

Afinal, o que a acupuntura trata?

Geralmente, a acupuntura é adotada para aliviar dores e sintomas de uma extensa gama de doenças. As substâncias que atuam como analgésico (endorfina), antiinflamatório (cortisol), antidepressivo (noradrenalina e serotonina), ansiolítico e cicatrizante, além de outros efeitos, são liberadas a partir de estímulos nervosos enviados ao cérebro causados pela aplicação das agulhas. A introdução das agulhas, não necessariamente no ponto onde se localiza o sintoma, produz uma microinflamação, à qual o cérebro reage com a produção dessas substâncias.

Essa liberação age sobre disfunções que vão desde a dor de cabeça até a hipertensão, passando pela dor ciática e cervical, a cólica renal, a rinite alérgica e problemas estomacais, como úlcera péptica e espasmo gástrico. Em muitas doenças, a acupuntura é indicada como tratamento paralelo. Um exemplo é o câncer, em que as agulhas aliviam os sintomas da radioterapia e da quimioterapia. No caso de derrame cerebral, a chamada acupuntura escalpeana, ou agulhamento do couro cabeludo, é indicada na redução de problemas de paresia, se associada à fisioterapia.

Acupuntura na universidade

Na USP, a acupuntura é matéria de graduação e pós-graduação na Faculdade de Medicina. A partir do quarto ano, os alunos podem optar pelo curso de acupuntura, ministrado em departamentos como neurologia, ortopedia e geriatria. São turmas de 30 alunos a cada seis meses. “A procura está aumentando muito”, diz Hong Jin Pai.

Além de dar aulas, Jin Pai coordena várias pesquisas em acupuntura. Atualmente, ele estuda em sua tese de doutorado os efeitos da terapia no tratamento da asma. Oitenta pacientes foram divididos em dois grupos e submetidos a sessões de acupuntura “falsa” e “verdadeira”. Na acupuntura “falsa”, as agulhas são aplicadas em pontos com poucas terminações nervosas e, portanto, surtem menor efeito. Os dois grupos passaram por ambas as técnicas, porém sem saber qual delas estava sendo aplicada.

A pesquisa está em andamento, mas os primeiros resultados apontam que, em pacientes submetidos à acupuntura verdadeira, a quantidade de células inflamatórias nos pulmões diminuiu significativamente, enquanto que, com a terapia falsa, esse número praticamente não sofreu alteração. “Além de atestar a eficácia da acupuntura no tratamento da asma, isso mostra que o chamado efeito placebo não tem tanta influência na melhora do paciente”, informa Hong Jin Pai.

Pesquisas como a do professor Hong são um esforço em comprovar as bases científicas da acupuntura e, com isso, dar maior credibilidade ao uso das agulhas. No Brasil, a técnica foi reconhecida como especialidade médica em 1995 pelo Conselho Federal de Medicina e, portanto, não é oficialmente considerada uma terapia alternativa. Porém, o título continua em voga, principalmente pela irresponsabilidade daqueles que fazem aplicações sem o conhecimento suficiente e, pior, pregando o misticismo ao invés da ciência.

Fonte: http://noticias.usp.br

 

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