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Textos

A Meditação na Tradição Yogika - Parte 1

Por Pedro Kupfer

O Karma Yoga é a lamparina,
O Bhakti Yoga é o combustível,
O Rāja Yoga é o pavio que mantém a chama,
O Jñāna Yoga é o ar que traz a luz,
que nos mantém conscientes.
Swāmi Dayānanda, O que é meditação?

Para que praticar?
Há uma felicidade que todo o mundo procura, mesmo sem saber, mesmo às cegas. Ao ponderar sobre aquilo que desejamos, chegaremos à conclusão que essa felicidade precisa preencher três aspectos. Ela deve ser:
1. felicidade absoluta – kevalasukham, i.e., uma felicidade que não inclua nenhum tipo de sofrimento ou perturbação,
2. felicidade permanente – nityasukham, i.e., uma felicidade que não termine, que não tenha hiatos nem pausas e, finalmente,
3. felicidade plena – niradiśayasukham, i.e., uma felicidade que n?o possa ser melhorada, que nos deixe tão satisfeitos que não tenhamos nenhum pensamento que não seja o da mais absoluta satisfação.
Essa felicidade, que não aumenta nem diminui, que não varia, que não cessa nem nos deixa, é chamada ānandam. Ela parece ser ofuscada pelo sofrimento, que está sempre à espreita, sempre escondido na próxima esquina para nos supreender e nos tirar a calma.
Assim, percebemos que o grande problema humano é justamente esse sofrimento, que por vezes nos parece inevitável e por vezes natural. A pergunta que cabe fazer, chegados neste ponto, é a seguinte: somos (ou fomos) bem sucedidos no esforço de encontrar essa felicidade? A meditação, aliada à compreensão de si mesmo, é uma ferramenta essencial para respondermos positivamente esta questão.

A tradição védica afirma que não há causa real nem razão suficiente para aceitarmos o sofrimento humano como algo natural e para não nos estabelecermos nessa felicidade com as três características que mencionamos acima. Para isso, precisaremos resolver um problema que está vinculado com a ideia que temos sobre nós mesmos.
A falta de habilidade do homem para lidar com seus próprios problemas deriva da incompreensão do fato de que qualquer problema tópico é expressão de um problema de fundo, e que esse problema é sempre o mesmo: cada pessoa vê a si mesma como um ser incompleto, inadequado, condicionado e preso no sofrimento.

O maior problema do ser humano é o julgamento autodestrutivo. Os demais animais não têm esse problema: eles não ficam julgando se estão bem vestidos, se precisam migrar para outro país ou mudar de carro para encontrar a felicidade. Enquanto esse problema não for resolvido, enquanto a pessoa não enxergar a si mesma como um ser completo e adequado, a vida irá sempre se mostrar como um problema insolúvel. Então, como sair dessa cilada?
A visão yogika nos mostra que apenas o conhecimento sobre o Ser elimina esse problema fundamental, e nos demonstra que não apenas os humanos, mas todos os seres são completos em si mesmos já que todos somos manifestações da perfeição de Īśvara.
Esse senso de inadequação que dá origem ao sofrimento surge da ignorância sobre a própria natureza. Quando descobrimos a nós mesmos como seres plenos e felizes, os conflitos desaparecem. A vida se torna um jogo e o viver, uma obra de arte que cada um constrói conscientemente, em harmonia com o dharma, o conjunto das leis universais e imutáveis que governam a criação.
Esse conhecimento é chamado Brahmavidyā, e constitui o ensinamento essencial do Yoga. O meio para realizar esse conhecimento é chamado Jñāna Yoga.
Como parte da tradição encontramos igualmente a arte do Karma Yoga, que consiste em realizar todas as ações como uma oferenda ao Ser, Brahman. Aceitar com gratidão os resultados das nossas ações, quaisquer eles forem, é a essência do Karma Yoga. Ao mesmo tempo, essa prática está vinculada como o Bhakti Yoga.
Essa maneira de praticar, ou melhor, de viver o Yoga, é chamada Yogaśāstra, a ciência do Yoga. Esse Yogaśāstra se expressa na atitude da oferenda ao fazermos as ações, e na aceitação com gratidão do resultados delas. Este ensinamento é o corolário do Brahmavidyā. Para apreciar esse tipo de ensinamento, é preciso termos uma mente e um intelecto claros, livres de julgamentos destrutivos e preconceitos. Em suma, uma psiquê yogika. Assim, Brahmavidyā e Yogaśāstra são os dois grandes temas que configuram o alicerce da tradição védica.

A importância das práticas prévias.
No entanto, para compreendermos quem de fato somos, para reconhecer essa identidade real, precisamos ter uma mente preparada. Para tanto existe um recurso chamado Upāsana Yoga que visa a nos dar essa clareza de visão. O Upāsana Yoga, no processo do autoconhecimento, deve ser praticado junto com o Karma Yoga, e sempre à luz do Jñāna Yoga.
Dizemos isto porque, contrariamente ao que possa parecer quando olhamos para aquela conhecida imagem de Buda sentado na postura do lótus sob a figueira, a meditação por si só não traz nem iluminação, nem liberdade, nem conhecimento. Assim, mesmo se a meditação não nos der essas três coisas (que aliás não são “coisas”), ela é muito útil e pode ser feita com outros cinco propósitos que veremos a seguir.
Esse processo de preparação da mente é conhecido como antaḥkarāṇaśuddhi, purificação do psiquismo. Nas palavras de Swāmi Dayānanda: “Antaḥkarāṇaśuddhi é o upādhi, a condição para que a curiosidade pelo autoconhecimento, o jijñāsaḥ, tenha lugar, para que o desejo de conhecimento possa acontecer. O antaḥkarāṇaśuddhi visa à preparação, à criação de uma paisagem interna conduzente para mokṣa”.
O upāsana pode praticar-se tendo em mente objetivos distintos: sakāma upāsana é útil para quem tiver em mente um benef?cio profano, enquanto que niṣkāma upāsana deve ser praticado como prepara??o da mente para mokṣa. No primeiro caso é de fundamental importância a forma. No caso do sakāma upāsana ser feito através de um mantra, por exemplo, a métrica, a fonética, a forma de respirar e a maneira de entoar são importantes.
Já no niṣkāma upāsana as regras não tem assim tanta importância, uma vez que o objetivo é trabalhar a preparação da mente e a concentração obtida durante o esforço da prática não se perde em caso dela ter que ser interrompida por algum motivo.

Os cinco passos do Upāsana Yoga.
Na Kaṭha Upaniṣad, compara-se o corpomente a um veículo através do qual é possível alcançar uma meta, na belíssima parábola do Ser e a carragem:
“Imagine o Ser como o senhor de uma carruagem realizando uma jornada. O corpo é a própria carruagem. O discernimento é o cocheiro. A mente, as rédeas. Os sentidos, dizem os sábios, são os cavalos, as estradas que eles percorrem, os labirintos do desejo. Quando o Ser é confundido com o corpo, a mente e os sentidos, ele parece desfrutar o prazer e sofrer a dor. Quando falta ao homem discernimento e à sua mente disciplina, os sentidos disparam e tornam-se incontroláveis, como cavalos selvagens. Porém, quando o homem possui discernimento e uma mente disciplinada, seus sentidos, como bem treinados cavalos, facilmente respondem ao freio. Aquele que não tiver discernimento, que não tiver disciplinado a mente, que não for puro de coração, não alcançará a meta, ficando preso ao ciclo de mortes e renascimentos sucessivos” (I:3,4-7).
Assim como um veículo deve estar em bom estado e com boa manutenção para alcançar seu destino, da mesma maneira o corpomente precisa estar igualmente funcional e em boa saúde para que o praticante possa se dedicar ao autoconhecimento. Neste trecho, a Upaniṣad nos fala da importância de administrar adequadamente as faculdades e funções psicofísicas para que elas sirvam ao propósito maior, que é mokṣa.
Para tanto, é necessário disciplinar o pensamento, bem como aprender a usar o discernimento e a comandar os órgaõs dos sentidos e das ações. É para isso que serve o Upāsana Yoga. O papel do upāsana enquanto preparação do psiquismo no Yoga, seria comparável ao condicionamento físico que o atleta precisa fazer para se preparar para a prática de um esporte exigente. Há cinco etapas nesse processo. Enquanto as primeiras quatro fases são preparatórias, a última é o que poderiamos chamar de meditação real:
1) meditação para relaxar,
2) meditação para focar,
3) meditação para expandir,
4) meditação sobre os valores, e
5) meditação vedāntica

1) Meditação para relaxar.
Esta meditação tem como objetivo principal dar um estado de relaxamento mental, emocional e físico ao praticante. É feita como condição essencial para iniciar o processo do autoconhecimento já que, sem um relaxamento prévio, o sucesso nas práticas subsequentes fica comprometido.
Este tipo de meditação implica uma abstração física, verbal e sensorial, que culmina num estado de descontração mental. Ela é especialmente importante na atualidade, considerando o modo de vida estressante que a sociedade nos impõe. A meditação relaxante é muito fácil de se praticar: apenas dedique um tempo por dia, de alguns minutos, a cultivar um estado de relaxamento.
Você pode fazer isso através da observação da respiração abdominal, da repetição de um mantra, ou da criação de impressões mentais positivas, como por exemplo quando buscamos um lugar tranquilo, perto da natureza (ou visualizando a natureza, se isso não for possível), onde possamos nos descontrair e apreciar a beleza da criação. Para este exercício preparatório, você não precisa assumir a tradicional posição sentada no chão. Ele pode ser feito deitado em śavāsana, a postura de relaxamento, deitada.

2) Meditação para focar.
A meditação para se focar nos ajuda a treinar a mente no sentido de desenvolver a tranquila atentividade, bem como a capacidade de permanecer focado por um período de tempo. Essa capacidade é útil para tudo: desde a prática de esportes ao estudo, desde o trabalho ao estudo, desde a prática de āsanas à de prāṇāyāmas, mantras e outras.
Para este tipo de meditação, recomendam-se as práticas de mānasa pūjā, pūjā mental, mānasa pārāyana, canto mental, e mānasa japa, repetição mental de um mantra. A diferença entre o segundo e o terceiro tipo destas meditações é que na segunda a palavra canto se refere a qualquer prece, śloka ou stotram feito mentalmente, enquanto que na terceira a prática se faz somente sobre um dos nomes ou aspectos de Īśvara, escolhido para esse fim.

3) Meditação da expansão.
Esta prática aparece já num dos primeiros e mais antigos śāstras do Yoga: a Taittirīya Upaniṣad. Chama-se viśvarūpa dhyānam. Nela, aprendemos a expandir a mente através da visualização, ou da tomada de consciência, da totalidade da criação. Dessa maneira, conseguimos transcender a identificação com as pequenas coisas do cotidiano que, via de regra, aumentam desmesuradamente em nosso pensamento até de tornar monstros de sete cabeças.
Esse tipo de perspectiva equivocada nos leva, via de regra, a noções equivocadas que, por sua vez, nos fazem agir de maneira errada e, ainda, a obter resultados indesejáveis a partir dessas ações. A meditação da expansão nos ajuda a compreender objetivamente o lugar de cada coisa e o significado dos papéis que representamos na vida.
Durante essa meditação, olhamos para nós mesmos na perspectiva do Todo, e assim passamos a conhecer o nosso lugar na ordem das coisas. Quando olhamos para o mundo como manifestação de Īśvara, e depois percebemos nossas questões pessoais nessa mesma perspectiva, as preocupações simplesmente ficam muito menores do que nos pareceram no início.

4) Meditação sobre os valores.
Este tipo de meditação é também chamado por Swāmi Paramārthānanda de meditação da transformação, já que ela implica uma mudança de paradigmas e de perspectiva da visão se si mesmo através da mudança dos padrões de pensamento. Modificando, mudando para melhor esses padrões, transformamos a nossa própria vida, uma vez que o pensamento determina a ação e esta, por sua vez, o nosso próprio destino.
Dentro do sādhanachatuṣṭayam, as quatro qualificações do mumukṣu que veremos mais adiante, encontramos um grupo de seis virtudes chamado śamādiṣatkasampattiḥ: desenvolver o comando sobre a mente, o controle sensorial, a capacidade de se ater aos próprios deveres, cultivar a paciência, desenvolver a capacidade de se concentrar e confiar no ensinamento. Estes podem ser objetos de meditação nesta categoria de upāsana.
Afora eles, encontramos uma coleção de 16 upāsanas na Taittirīya Upaniṣad, uma belíssima lista de 20 valores universais sobre os quais meditar, no capítulo XIII da Bhagavadgītā, bem como outra lista de 10 preceitos de conduta no Yogasūtra, chamados yamas e niyamas, que ainda são complementados de uma maneira muito linda pelos seis valores do Sanatsujātīyaṁ, um instrutivo diálogo sobre a vida de Yoga inserido no Mahabhārata. No verso 43 desse diálogo, o sábio Sanatsujāta ensina ao rei cego Dhṛtaraṣṭra que há seis formas de praticar, vinculadas com outros tantos valores. Existem muitos caminhos, adequados para as diferentes sensibilidades das pessoas.
O conselho que o ṛṣi dá para o rei é que o tipo de ensinamento deve estar em função da história pessoal de cada um, para adaptar a forma de expor o conhecimento à maneira de ser da pessoa. O professor, dessa maneira, precisa ver em que ponto está cada praticante e fazer as escolhas certas para ajudá-lo com eficiência. As seis formas de prática são as seguintes:
A) Satyam, fazer coincidir palavras, pensamentos e ações,
B) Ārjavan, retidão de conduta, sinceridade,
C) Hrīḥ, simplicidade, humildade,
D) Dama, equanimidade, autocontrole,
E) Śauchan, pureza interior, e
F) Vidyā, conhecimento de si mesmo.

5) Meditação vedántica.
Esta última fase da prática consiste em contemplar sobre as verdades que já foram compreendidas, para uma melhor assimilação do ensinamento. Para tanto, devemos escolher um aspecto específico desse ensinamento e nos concentrar nele, de maneira que, ao integrá-lo à nossa personalidade, ele nos ajude a nos livrar de crenças, preconceitos e erros de visão sobre nós mesmos.
O outro nome dado a esta prática é nididhyāsanam. Nos aprofundaremos no propósito dela na segunda parte do presente artigo. Reconhecendo que o corpo é apenas um instrumento para realizar ações, usamos esse instrumento sabendo que não somos ele. Esse é um dos grandes temas da meditação vedántica. Outros temas são a não-identificação com o pensamento, a não-identificação com as emoções, a não-identificação com os desejos e a não-identificação com o ego.
Em oposição a essas identificações equivocadas, a visão védica nos mostra que somos Consciência plena, manifestada na forma do complexo corpomente. Assim, essa parte da prática consiste em meditar sobre a essência do ensinamento, que recebe o nome de mahāvākya, “grande afirmação”. Através dessas meditações, corrigimos a visão equivocada que possamos ter, por exemplo, em relação ao que significa viver: não nascemos na hora em que nossa mãe nos deu à luz, nem morreremos na hora em que a vida abandonar o organismo.
O corpomente é um instrumento temporário nascido da combinação inteligente dos cinco elementos, aos quais retornará quando a vitalidade o abandonar. Este instrumento é um presente, uma dádiva que usamos para aprender e crescer, mas nós não começamos nem terminamos nele. Isso precisa ficar claro. Fazem-se processos semelhantes em relação às emoções, pensamentos, desejos e demais processos, no início de cada meditação. Na segunda parte desses exercícios, podemos ainda escolher um mahāvākya, uma destas importantes sentenças que abordaremos no próximo artigo. Até lá e boas práticas!

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