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A Meditação na Tradição Yogika - Parte 3

Pedro Kupfer - 29 de Maio de 2013

Dando continuidade ao tema da meditação na tradição do Yoga, trazemos agora à apreciação do amigo leitor mais um aspecto desse assunto tão fundamental: algumas considerações práticas sobre a meditação em si, bem como sobre a maneira de aplicar a atitude yogika no cotidiano.

Vimos anteriormente que a meditação védica é dividida em cinco etapas: relaxamento, focalização, expansão, revisão de paradigmas e meditação propriamente dita, nididhyāsanam. Nos primeiros quatro passos iniciais da meditação, se usarmos por exemplo um mantra como invocação a Īśvara na forma da ordem, é importante conhecer o seu significado, já que todo mantra alude à ordem de Īśvara.

Enxergar a ordem de Īśvara, e aceitá-la, são passos iniciais mas importantes nesse processo. Aquele que enxerga, reconhece e aceita a ordem de Īśvara, reconhece a svārūpaḥ ou natureza essencial do Ser em si mesmo. Isto, por sua vez, facilita, como vimos anteriormente, o antaḥkarāṇaśuddhi, a purificação do psiquismo.

Somente depois é que devemos pensar em passar à última fase da meditação, nididhyāsanam. Quando reconhecemos que não há diferença, que não há mudança em nós apesar da representação dos diferentes papéis que cumprimos na sociedade, na família ou em relação a nós mesmos enquanto indivíduos, estamos prontos para dar esse passo.

Algumas formas de meditação envolvem ações, como por exemplo gestos do corpo ou das mãos, formas específicas de respirar, mantras ou palavras que são pronunciadas de uma maneira específica. Os sentidos, consequentemente, se envolvem nessas ações.

O Vedānta ensina que a contemplação de Īśvara como saguṇabrahmaviṣayaḥ, Brahman com atributos, nos ajuda no processo que mencionamos anteriormente, de purificação mental e emocional. Já o nididhyāsanam é uma forma de meditação profunda, nascida da própria compreensão que temos dos śāstras.

Considerações práticas sobre a meditação.

No diálogo entre Kṛṣṇa e Arjuna da Bhagavadgītā [VI:10-14], o professor menciona ao estudante alguns importantes detalhes sobre como meditar:

“Procure o yogin aplicar-se com afinco à contemplação do Ser, vivendo em retiro, com o pensamento e o corpo firmes, livre de ânsia e possessividade. Em um lugar puro, prepare um assento para si, nem muito alto nem muito baixo, acondicionado com erva kuśa, uma pele de antílope e um pano de seda. Então, com a mente concentrada num único ponto, disciplinando pensamentos e sentidos, pratique o Yoga para purificar sua psiquê. Mantendo-se firme, com o corpo, o pescoço e a cabeça eretos e imóveis, olhando fixamente a ponta do nariz, sem desviar o olhar, com ânimo sereno e livre de temor, a mente aquietada, perseverando no voto de brahmāchāri, permaneça recolhido e medite só em Mim como Paramātma.”

Veremos agora em detalhe esses aspectos mencionados nesta seção do diálogo da Gītā, e ainda vários outros que são igualmente importantes.

1) Deha, o corpo.

É importante que o corpo esteja confortável na posição em que meditamos. Para tanto, cabe lembrar alguns cuidados básicos que devemos ter em relação a ele. Idealmente, se formos meditar durante a manhã, deveríamos, primeiramente, esvaziar intestinos e bexiga, tomar um banho ou pelo menos lavar o rosto e a boca antes de começar. Depois disso, poderemos escolher o local.

Uma prática completa de Haṭha Yoga inclui, antes de passarmos à meditação, que se faz habitualmente no final, momentos dedicados à interiorização, à postura, ao prāṇāyāma, ao relaxamento e à concentração. Nesse contexto, poderemos verificar que é muito mais fácil nos conectar com a meditação, pois as outras técnicas já nos predispõem e preparam para ela.

2) Āsana, a postura.

Āsana é a postura, que deve ser firme e confortável, sthirasukham. O termo āsana, inicialmente, designava não apenas a postura do corpo mas também o lugar onde a pessoa sentaria para meditar. Esse assento é descrito em detalhes na citação acima. Hoje em dia, na falta de kuśa, a esteira que o texto menciona, podemos usar um pequeno tapete, que sirva como isolante térmico e nos trag conforto.

Meditar implica assumir alguma postura com o corpo. Essa postura, tradicionalmente, é feita com as pernas cruzadas. Dentro dos textos de Yoga são consideradas posições fundamentais padmāsana, siddhāsana e svāstikāsana.

Porém, é perfeitamente possível meditar em qualquer postura onde o corpo permaneça suficientemente cômodo e aquietado. Na hipótese de não conseguirmos sentar no chão, poderemos fazer a prática numa cadeira ou poltrona. Na hipótese de nem sequer conseguirmos meditar sentados, por exemplo quando convalescemos, é melhor meditarmos deitados do que deixarmos de meditar.

Em qualquer posição adotada, as costas devem ficar naturalmente eretas, mantendo o pescoço e a cabeça no prolongamento da coluna, como indica o trecho da Gītā que citamos acima. Caso as costas estejam apoiadas, é desejável evitar apoiar a cabeça. Idealmente, se houver necessidade de apoiar as costas numa parede ou cadeira, devemos colocar em contato com o encosto apenas a região lombar para facilitar o fluir da respiração.

O corpo precisa estar descontraído: os ombros baixos e soltos, os braços relaxados, o tronco elevado, mantendo espaço entre as cristas ilíacas e as axilas e entre a pélvis e o esterno, para que o prāṇa possa circular sem obstáculos. O correto alinhamento da coluna vertebral facilita a irrigação sanguínea. Caso os joelhos fiquem acima da linha do umbigo, recomenda-se sentar sobre uma almofada. Se um ou os ambos os joelhos ficarem no ar, é conveniente usar algum tipo de apoio para eles, como por exemplo um cobertor dobrado.

À posição iconográfica das pernas cruzadas, poderemos acrescentar ainda alguma mudrā, algum gesto feito com as mãos, como por exemplo deixar os dedos entrelaçados ou colocar o dorso de uma mão sobre a palma da outra. Esses gestos e posturas têm por objetivo facilitar a introspecção e favorecer a circulação da energia, evitando consequentemente a dispersão.

3) Kayasthairyam e parikrāma, estabilização e circunvolução da atenção.

Kayasthairyam quer dizer “corpo firme”. Esse nome refere-se à capacidade de ficar ciente do corpo e prepará-lo para a meditação, através de um processo que leva apenas alguns minutos e tem lugar no início da prática. Esse processo de aquietamento é fundamental, pois é através dele que conseguimos dar o salto das experiências do corpo físico para as da mente e as emoções.

Esse salto é chamado pratyāhāra, ou abstração sensorial. Ele pode acontecer através de uma prática chamada parikrāma. Sem algum grau de pratyāhāra, a meditação pode se tornar uma experiência assaz frustrante. O termo parikrāma ou pradakṣiṇa define um passeio ritual, uma prática que consiste em completar uma circunvolução ao redor de um lugar sagrado, como uma montanha, um lago ou um templo.

Na prática de meditação, fazer parikrāma é visualizar todas e cada uma das partes do corpo, numa sequência determinada (por exemplo, começando pela cabeça e terminando nos pés), o que nos leva a um estado de aquietamento gradual, já que damos ao pensamento um alimento uniforme e gradual. Passar por este processo duplo, kayasthairyam e parikrāma, é fundamental para conseguirmos fruir a meditação da melhor maneira.

4) Tempo, lugar e circunstância.

Inicialmente, o tempo de prática de meditação não deve ser inferior aos 20 minutos, embora qualquer tempo de prática seja evidentemente superior a nenhum tempo de meditação. Noutras palavras, na hipótese de não termos disponíveis esses 20 minutos, é desejável fazer pelo menos 10 minutos, o que é bem melhor do que nada. Lembremos que prática “ruim” é a que deixamos de fazer. Com a prática, esse tempo será naturalmente estendido para meia hora ou mais, sem esforço.

Praticar sempre à mesma hora ajuda a disciplinar o pensamento e a criar um hábito firme e constante para meditar. Porém, na eventualidade de precisarmos quebrar esse hábito quando viajamos, por exemplo, é melhor meditarmos a qualquer momento do que pularmos a meditação. É sábio também sermos compassivos conosco e não nos culpar caso precisemos, ocasionalmente, quebrar a rotina do sādhana.

Criar um ambiente conduzente para praticar é igualmente muito importante. O lugar da prática, na medida do possível, deve ser silencioso, tranquilo e livre de estímulos que possam nos distrair. Idealmente, podemos criar ou reservar um recanto dentro do nosso lar para praticar, onde possamos.

É desejável, caso estejamos convivendo com outras pessoas, avisar a elas sobre nossas intenções para que não nos distraiam inadvertidamente. Desligar o telefone, a música ou a televisão podem também ser boas ideias para reduzir ou eliminar distrações.

5) Respiração.

A forma de respirar durante a meditação é um capítulo aparte. Há práticas nas quais a observação da respiração natural representa um papel fundamental, como acontece nos estágios iniciais do antarmauna. Ha práticas em que a respiração é deliberadamente modificada, fazendo por exemplo ujjayī prāṇāyāma por extensos períodos de tempo.

E há outras formas de meditação nas quais a respiração deve ser propositalmente deixada de lado, para evitar o risco de confundir Ātma com prāṇa, o Ser com a força vital, pois pode ser natural concluir que, uma vez que o prāṇa é o suporte da vida física, ele deva ser Ātma.

De modo geral, podemos afirmar que, ao meditar, cabe disciplinar a respiração de maneira que flua livremente, sem obstruções, sem retenções e evitando que ela fique lenta ou rápida demais. Nesse sentido, cabe fazer, se for o caso, a respiração abdominal, suave e natural.

6) Atitude.

A atitude é fundamental, uma vez que ela determina o resultado da prática e a relação que nutrimos e mantemos com ela. Na Gītā uma das definições de Yoga que é dada é samattvam, Yoga como equanimidade ou equilíbrio. A atitude equânime é fundamental ao praticar, já que é a porta de entrada para podemos levar o Yoga para fora da sala de práticas, como veremos mais adiante.

Ao meditar, cabe manter baixas as expectativas, cultivando a atitude de kṣānti, pacífica aceitação tanto em relação à prática em si, quanto em relação a seus frutos. Dessa maneira, e mantendo o propósito do sādhana claro na mente, não nos frustraremos pois evitaremos o perigo de alimentar fantasias ou confusões em relação à busca de experiências místicas, tema que tocaremos na parte deste texto.

Ainda cabe, da mesma maneira, manter o espírito de Īśvara pranidhāṇa, dedicando os resultados da ação de meditar a Īśvara, em alguma das suas múltiplas formas. Todas estas atitudes aqui sugeridas visam a trazer tranquilidade ao praticante, para que este possa fruir esse momento especial que é praticar e ao mesmo tempo ficar a sós consigo mesmo.

Ficarmos em bons termos com o nosso próprio sādhana é fundamental para que esse encontro nutra o coração e sirva como uma ferramenta para renovar o entusiasmo para viver a vida de Yoga, uma vida consciente, tranquila e feliz.

7) Ekagrātā, a fixação da atenção.

Ekagrātā, a fixação da atenção em um ponto determinado, é o passo prévio à prática da meditação. Esse ponto pode ser uma região do corpo (a ponta do nariz mencionada na citação que fizemos acima da Gītā é um bom exemplo) ou uma imagem (a chama de uma vela, a lua, uma mūrti, imagem sagrada). O objetivo é ganhar algum grau de comando sobre os sentidos e preparar o terreno para que o antaḥkarāṇaśuddhi, a purificação psíquica, tenha lugar. Depois de termos contemplado estes seis aspectos, poderemos passar a meditação propriamente dita.

Lidando com as dificuldades.

Pode ser que, ao iniciar a disciplina diária, se desenvolva algum tipo de resistência à meditação, a realizar o gesto de sentar para fazer a contemplação ou qualquer outra prática de Yoga. No Yogasūtra (I:30), o sábio Patañjali nos dá uma lista de nove obstruções à prática que podem surgir ao longo do caminho:

“Doença, inércia, dúvida, negligência, preguiça, volubilidade, equivocação, inconstância e instabilidade. Estas nove distrações são os obstáculos”.

Vyāsa, o maior comentarista do Yogasūtra, nos esclarece a respeito do significado deste aspecto do ensinamento:

“Doença é o desequilíbrio dos dośas [humores corporais], as secreções e os órgãos do corpo. Inércia é a falta de preparo ou incapacidade da mente. Dúvida é o pensamento disjuntivo, como “pode ser isto” ou “pode não ser isto”. Negligência é não considerar os processos de concentração. Preguiça é a falta de disposição que surge da letargia do corpo e da mente. A volubilidade surge do apego aos objetos mundanos. As concepções errôneas são conhecimento falso. A falta de perseverança é a impossibilidade de se estabelecer firmemente nos estágios do Yoga. A instabilidade para permanecer na prática se vincula ao fracasso em manter essa [concentração]”.

A palavra obstáculo, em sânscrito, antarāyā, significa literalmente “interpor-se” ou “ficar no meio”. Os obstáculos podem aparecer sob roupagens muito diferentes, tanto físicas quando psicológicas. Estes obstáculos são verdadeiras usinas de distrações e preocupações que impedem o progresso na prática. Não obstante, eles fazem parte do caminho e devem ser aceitos, em primeiro lugar, para poder ser transcendidos.

A presente lista de obstáculos que Patañjali expõe tem como objetivo nos alertar sobre os possíveis desvios e bloqueios que possam surgir na caminhada, tranquilizando-nos ao mesmo tempo ao nos ensinar que os obstáculos são naturais e fazem parte da jornada e ainda, encorajando-os para superá-los.

De alguma maneira, os obstáculos são mecanismos naturais de autodefesa, colocados em movimento pelo subconsciente para nos proteger dos eventuais desequilíbrios que a prática possa produzir se não for feita corretamente. Obstáculos, é sábio reconhecer, fazem parte de toda jornada espiritual. Sermos honestos em relação a eles nos ajudará a superá-los, mantendo com otimismo a motivação e o foco naquilo que nos propomos a realizar.

No entanto, essas defesas naturais que são os obstáculos se tornam de fato intransponíveis quando nos fazem abandonar a prática (podem surgir pensamentos como “isto não é para mim”, ou “não nasci para fazer esta prática”), ou ainda quando a presença desses obstáculos passa a ser ignorada (como por exemplo quando alguém diz “acho melhor evitar a meditação, pois não tenho paciência para isso”).

Assim sendo, precisamos usar o bom-senso e, se for o caso, pedirmos ajuda a um mestre ou professor qualificado para nos orientar e nos ajudar a avaliar se a prática que estamos fazendo é a mais adequada para nós mesmos, se está nos fazendo bem, se nos ajuda e aproxima do objetivo final de todo Yoga, que é mokṣa.

Meditar sem padmāsana.

A contemplação sobre o significado real da palavra Eu é o que define o nididhyāsanam, última e mais importante fase da meditação yogika. Essa contemplação completa o processo de śravaṇam-mananam-nididhyāsanam, ouvir, questionar e refletir sobre o ensinamento, que já mencionamos na segunda parte deste texto.

Nesse sentido, fazer nididhyāsanam não deve ser interpretado como um exercício separado da vida em si: quanto mais tempo ficarmos em boa companhia com nós mesmos, mais tempo permaneceremos cientes da tranquilidade que somos e melhor viveremos a vida.

Assim, esse processo inicia com uma disciplina diária na qual assumimos uma postura sentada para meditarmos, como dissemos antes, por 20 minutos. Esse tempo, oportunamente, poderá estender-se. Porém, o propósito do nididhyāsanam não é bater recordes de permanência em meditação, senão desenvolver a capacidade de levar essa mesma consciência que o nididhyāsanam nos dá, para todos os momentos do cotidiano.

Dessa maneira, quanto mais tempo dedicarmos a estar bem com nós mesmos, sozinhos, mais tempo poderemos consagrar a estar bem com o mundo, de maneira que essa atitude contemplativa característica da meditação se estenda a cada um dos momentos que vivemos. Assim, conseguimos lidar melhor com as coisas do mundo, uma vez que tenhamos aprendido a lidar melhor com nós mesmos.

Por outro lado, nididhyāsanam não é evadir-se do mundo ou das próprias responsabilidades, mas aprender a lidar da maneira mais objetiva com a realidade das coisas. Concluímos esta seção do presente texto citando novamente a Bhagavadgītā (V:7-11), que, novamente nos dá preciosas dicas sobre a maneira de trazermos o nididhyāsanam para o cotidiano:

“Aquele que, vivendo entregue ao Yoga, é puro de coração, vence a si mesmo, disciplina seus sentidos e identifica seu Eu com o de todas as criaturas, mesmo ao realizar uma ação, não se prende a ela. “Eu nada faço” deve pensar o devoto instruído na Verdade quando vê, ouve, toca, come, anda, dorme, respira, fala, segura ou solta alguma coisa, abre ou fecha os olhos, considerando que “são os sentidos que se relacionam com os objetos”.

Quem age sem o menor apego, dedicando suas ações a Brahman, não sofre com o erro, da mesma forma que a água não adere à folha do lótus. Os yogis executam seus atos exclusivamente com o corpo, pensamento, intelecto e mesmo com os simples sentidos, sem abrigar identificação com quaisquer desejos, a fim de purificar o coração”.

Na próxima parte deste texto abordaremos o tema final da série: sākṣi, a consciência testemunha, e as formas de cultivar essa atitude yogika, tanto dentro quanto fora da sala de práticas. Bom sādhana.

Namaste!

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