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Origens da Acupuntura

A Acupuntura é um ramo da MTC. E a mesma tem uma história antiqüíssima.

Em épocas imemoriais, remontando a antiguidade, nossos antepassados, que habitavam o extremo oriente, mais especificamente a China, fundaram uma medicina primitiva, baseada em suas vivências empíricas, durantes suas batalhas pela sobrevivência, no seio da natureza. A este sistema de cura, de tratamento do organismo humano, enquanto totalidade dá-se atualmente o nome de MTC. (SUSSMANN, 1975).

A MTC é composta de diversos métodos de tratamentos, entre eles a fitoterapia chinesa, ou seja, o uso de ervas para o tratamento clínico, dietas específicas a cada paciente, massagens como, por exemplo, a massoterapia chinesa ou Tui-Ná, os exercícios como Tai Qi Chuan, o Qi Kung, as técnicas que se empregam de ventosas, etc. (MAIKE, 1995).

A Acupuntura e o moxabustão também fazem parte desta diversa gama de tratamentos ofertados pela MTC. (MAIKE, 1995).

 

A acupuntura e o moxabustão são componentes importantes na medicina chinesa tradicional que previnem e tratam doenças picando certos pontos do corpo com agulhas ou aplicando calor com algodão de moxa inflamado. De grande eficácia e requerendo equipamentos muito simples, elas são muito populares na China e em outros lugares a milhares de anos. (MAIKE, 1995, p. 29).

 

A Acupuntura e o moxabustão vêm sendo desenvolvidos durante milhares de anos, sendo que sua história é conhecida apenas uma pequena fração.

Os registros falam que a Acupuntura tem em torno de cinco (5) mil anos ou mais, entretanto suas origens não estão delimitadas com precisão pelos estudiosos e seus conteúdos passaram por transformações profundas desde sua origem.  Embora faltem dados arqueológicos, presume-se que sua origem remonte a uns cinco mil anos e que seu berço tenha sido a China.” (SUSSMANN, 1975, p. 33).

Não se sabe quando começou a utilização das agulhas nos pontos de Acupuntura, existindo diversas lendas que falam a respeito deste início, do princípio desta metodologia de tratamento, entretanto nada é comprovado.

O que se sabe é que na antiguidade, segundo alguns autores, mais especificamente na Pré-História, eram utilizadas agulhas, feitas de lascas de pedras ou de bambu, para tratar diversos tipos de sintomatologias, e eram conhecidas as agulhas de pedra pelo nome de “bian” que significa justamente pedra. (MAIKE, 1995). Estas agulhas eram inseridas no organismo, em pontos específicos, sendo que as mesmas promoviam um re-equilíbrio geral do organismo. (SUSSMANN, 1975).

Conforme foram se desenvolvendo as ciências na China os equipamentos utilizados foram sofrendo modificações e sendo aperfeiçoados pelos acupuntores e médicos que utilizavam os mesmos. “Quando a sociedade humana entrou na Era do Bronze e depois na Era do Ferro, as agulhas confeccionadas com estes metais substituíram a pedra bian”. (MAIKE, 1995, p. 29).

O moxabustão, aquecimento do corpo em regiões específicas, foi descoberto quando os chineses perceberam que quando aqueciam determinada área com areia ou pedras quentes, era possível aliviar diversas dores e enfermidades.

 

A moxabustão originou-se depois da introdução do fogo na vida do homem. Presume-se que enquanto se aqueciam com o fogo, as pessoas da antiguidade acidentalmente encontraram alivio, ou até mesmo o desaparecimento de certas dores ou doenças quando áreas definidas da pele eram submetidas ao calor. (MAIKE, 1995, p. 29).

 

Com o tempo, o material utilizado para a prática de aquecimento de determinadas áreas do corpo, foi sendo modificado, aprimorado. Então folhas de moxa foram utilizadas para o trabalho de aquecimento, pois elas se incineravam com facilidade e o aquecimento se mantinha constante e suave.

 

Mais tarde as folhas de moxa foram escolhidas como material para cauterização, visto que elas se queimavam facilmente e o calor produzido era brando e eficaz na remoção da obstrução dos Meridianos e colaterais. Assim foi instituída a arte da moxabustão. (MAIKE, 1995, p. 29).

 

Quanto às referências escritas, o manuscrito mais antigo que se tem notícia é o Huiandgi Nei-Ching, conhecido no ocidente como Cânon de Medicina, ou como Livro de Tratamentos do Imperador Amarelo, ou Nove Volumes, ou Livro Clássico que Trata do Interno, entre outras traduções. (SUSSMANN, 1975).

Este livro possui em média 2.500 anos, entretanto os historiadores não têm certeza a respeito desta datação. Ele foi escrito durante a dinastia Chu ou Chou (dependendo da tradução), sendo que esta dinastia fez-se presente entre os anos de 1122 até 256 a.C.. Toda a história antiga chinesa está dividida temporalmente por dinastias. A dinastia Chu é considerada a “idade de ouro da filosofia chinesa (taoísmo, confucionismo)” (SUSSMANN, 1975, p.35).

 O Nei-Ching é o resumo das experiências médicas e dos conhecimentos adquiridos por médicos acupuntores chineses, ao longo da antiguidade. “O Nei-Ching contém praticamente toda a ciência do diagnóstico e do tratamento por meio das agulhas e das moxas.” (SUSSMANN, 1975, p. 34).

Este livro está dividido em duas partes o Su-Wen e o Ling-Shu.

A primeira parte, o Su-Wen, que significa “Assuntos Fundamentais” (LING-SHU, 1995, p.8), entre outras traduções, explana a respeito da semiologia e clínica da MTC.

A segunda parte, o Ling-Shu, que possui diversas traduções tais como “Apoio da Mente”, “Pivô da Mente” ou “Eixo Espiritual”. (LING-SHU, 1995, p.8), trata especificamente do tratamento com moxabustão e Acupuntura.

 

O livro consiste de duas partes, Suwen e Lingshu, descreve as teorias básicas da medicina tradicional chinesa, tais como a yin-yang, os cinco elementos, zang-fu, Meridianos e colaterais, qi (energia vital) e sangue, etiologia, patologia, métodos de diagnóstico e diferenciação das síndromes, bem como o conhecimento básico referente aos pontos de acupuntura e os métodos de uso das agulhas. (MAIKE, 1995, p.30).

 

O Nei-Ching é considerado a “bíblia da acupuntura” (SUSSMANN, 1975, p.33). Sendo atribuído ao lendário imperador Huang-Ti, conhecido também como Imperador Amarelo. Ele é escrito na forma de um diálogo entre o Imperador Amarelo e um médico da corte chamado Ch’i Pai ou Ch’i Pó. (SUSSMANN, 1975).

Os pesquisadores até hoje não sabem quem foi o autor do manuscrito, mas supõem que tenha sido uma diversa gama de médicos acupuntores que trabalharam coletando os conhecimentos da antiga tradição oral chinesa.

 

O Nei-Ching é uma obra formada de elementos diversos. Os primeiros fragmentos foram copilados durante o período dos Estados Combatentes (pelos idos de 475 a 221 a.C.) por um grupo de médicos anônimos. (LING – SHU, 1995, p. 16).

 

O Nei-Ching foi escrito em rolos de seda, sendo que os clínicos caligrafaram nos Juan (rolos) os capítulos ou as divisões do livro. (LING-SHU, 1995).

A produção do Nei-Ching foi realizada obedecendo a uma numerologia sagrada para o povo chinês. Para os chineses o número um (1) representa o céu, o número dois (2) representa a terra, o número três (3) representa o homem, e assim sucessivamente até o número nove (9), que é considerado o número supremo, o mais alto da hierarquia celeste, conhecido também como palácio central, no qual está a base do universo. O Nei-Ching (Livro Clássico que Trata do Interno) foi assim constituído por 9 x 9=81 parágrafos. Os 9 capítulos do Ling-Shu (Pivô da Mente) foram comparados a 9 eficácias. (LING-SHU, 1995).

Existem diferenças enormes nas traduções dos textos em chinês ou mandarim, sendo que existem diversas traduções diferenciadas do Nei-Ching.

Além de Huang-Ti ou Imperador Amarelo, outros dois imperadores merecem destaque na história da Acupuntura que são: imperador Fu-Hi e o imperador Sheng-Nong. (MAIKE, 1995).

Ao imperador Fu-Hi se confere a descoberta ou criação do conhecimento a respeito dos alimentos e os oito trigramas, chamados de Pa Kua, sendo que o Pa Kua é a base para os sessenta e quatro hexagramas, que formam o livro I-Ching, do qual falaremos mais adiante.

Ao imperador Shen-Nong, que foi sucessor de Fu-Hi, atribui-se o conhecimento da agricultura, da medicina e da fitoterapia. (SUSSMANN, 1975).

 

[...] Shen-Nong, o Deus do fogo, que por meio do incêndio dos bosques obteve terras aráveis pra seu povo. Ensinou-o a trabalhar os campos e a comercializar frutos. É considerado o deus da medicina, pois foi o primeiro a reconhecer o valor curativo das plantas e é-lhe atribuída a primeira compilação de matéria médica. (SUSSMANN, 1975, p. 34).

 

Várias histórias que se tem notícia não são reconhecidas enquanto verdadeiras por estudiosos, entretanto é de fundamental importância conhecê-las para que se possa entender um pouco mais a respeito do pensamento chinês. Um exemplo disto são os Imperadores citados acima. “Esses imperadores lendários, que teriam existido no período neolítico chinês, trinta séculos antes de Cristo, são negados por muitos historiadores, que supõem ser criações de épocas históricas muito posteriores.” (SUSSMANN, 1975, p. 34).

Após o aparecimento do manuscrito Nei-Ching surgiram inúmeros compêndios, livros e manuscritos tratando a respeito da ciência da Acupuntura.

O Nan-Ching (Regras das Dificuldades), escrito por Houa To e datado por volta de 206 a.C. até 220 d.C., durante a dinastia Hang. “[...] na qual o célebre Houa To se destacou como médico que praticou a Acupuntura, utilizando somente um dos dois pontos e moxando somente dois lugares de cada vez.” (SUSSMANN, 1975, p.35).

O Zhenjiu Jiayi-Ching (O clássico de Acupuntura e Moxabustão) datado em 265 d.C. baseado no Nei-Ching e copilados por Huangfu Mi da Dinastia Jin. (MAIKE, 1995).

 

Estes livros fornecem uma descrição abrangente das teorias básicas e conhecimentos sobre acupuntura e moxabustão, dando uma boa base para o desenvolvimento da acupuntura e da moxabustão em um ramo independente da medicina tradicional chinesa. (MAIKE, 1995, p. 30).

 

No ano de 1026 d.C. tem-se o livro o Tongren Shuxue Zhenjiu TuChing (Manual Ilustrado de Pontos de Acupuntura e Moxabustão apresentando as Figuras de Bronze), copilado por Wang Weiyi, na Dinastia Song. (MAIKE, 1995).

 

No ano seguinte, isto é, em 1027, Wang Weiyi patrocinou a fundição de duas figuras humanas em bronze com os pontos da acupuntura marcados, um evento significativo no desenvolvimento da acupuntura e moxabustão. (MAIKE, 1995, p. 30).

 

Outro livro essencial na história da Acupuntura é o Zhenjiu Dachen (Compêndio de Acupuntura e Moxabustão), datado em 1601 d.C., escrito por Yang Jizhou, acupuntor que viveu na dinastia Ming. Foi de extrema importância, principalmente para o entendimento da forma em que a Acupuntura se apresenta atualmente. (MAIKE, 1995).

 

Aqui, o autor reuniu sistematicamente a literatura e as fontes da acupuntura e moxabustão das gerações passadas e apresenta métodos de tratamento secretamente passados a ele por seus ancestrais. Foi um livro de referência indispensável no estudo da acupuntura e da moxabustão durante os quase quatro séculos desde sua publicação. (MAIKE, 1995, p. 30).

 

Centenas de outros livros foram publicados depois do surgimento do Nei-Ching. Alguns foram citados e muitos foram negligenciados, por não ser este o principal objetivo do presente trabalho. Os livros citados acima foram escolhidos diante da importância histórica que apresentam.

Existem também diversas bibliografias que relatam a prática da Acupuntura em outros países, além da China, entre eles a Coréia e o Japão.

 

Registros históricos documentam a amplitude da acupuntura e da moxabustão em outros países desde tempos muito remotos. Sua prática foi introduzida na Coréia no século VI, indo para o Japão no mesmo período quando um monge chamado Zhi Cong viajou para leste pelo mar, levando consigo o Mingtangtu (Illustrated Manual of Channels, Collaterals and Acupuncture Points), Zhenjiu JiayiChing e outros livros médicos. No final do século XVII, os métodos de acupuntura espalharam-se pela Europa. Tudo isto promoveu a troca de conhecimentos médicos e culturais entre a China e outros países do mundo. (MAIKE, 1995, p. 30).

 

A chegada da Acupuntura no ocidente aconteceu nos meados do século XVII. Esta disciplina da MTC chegou ao ocidente pela Europa com monges jesuítas. “A Europa conheceu a Acupuntura no século XVII, por meio das informações prestadas pelos jesuítas da missão científica francesa de Pequim e que foram publicadas na França nos anos de 1671 e 1682.” (SUSSMANN, 1975, p. 39).

Durante algum tempo, entre os séculos XVII, XVIII e XIV, algumas pessoas estudaram e tentaram ensinar Acupuntura na Europa, entretanto com pouco sucesso. Foi o cônsul francês na China, Soulié de Morant, que introduziu definitivamente a Acupuntura no ocidente. Este homem aprendeu Acupuntura diretamente com médicos chineses, pois falava e escrevia com perfeição a língua chinesa. O primeiro encontro que Soulié de Morant teve com a Acupuntura foi em 1901. (SUSSMANN, 1975).

Em mil novecentos e trinta e quatro (1934) publicou seu famoso “Compêndio da verdadeira acupuntura chinesa” (SUSSMANN, 1975, p. 41). Este foi o primeiro livro de Acupuntura escrito neste século.

A partir deste momento a Acupuntura começou a espalhar-se pela Europa. Da França para a Alemanha e depois para a Itália, Suíça, Inglaterra, Romênia, Tchecoslováquia e Rússia. (SUSSMANN, 1975).

O primeiro país da América que conheceu a Acupuntura foi a Argentina, segundo Sussmann (1975). Entretanto foi nos Estados Unidos da América que a Acupuntura ganhou espaço e reconhecimento nas Américas.

Em uma visita do presidente Nixon à China um dos jornalistas que estavam junto com o presidente adoeceu e foi tratado com a Acupuntura. (WHITE, ERNST, 2001).

 

Ocorreu uma grande onde de interesse na acupuntura após a visita do presidente Nixon à China, em 1971. Nesta ocasião, um membro da equipe de jornalistas do presidente, o repórter James Reston, do New York Times, teve apendicite. Ele recebeu um tratamento com acupuntura para aliviar a dor pós-operatória e escreveu um relato detalhado de suas experiências para seus ávidos leitores. (WHITE, ERNST, 2001, p. 4).

 

Médicos norte-americanos visitaram anos depois a China para compreender melhor esta técnica de tratamento, assistindo cirurgias realizadas somente com o uso de agulhas de Acupuntura como anestésico. “O interesse do público e da comunidade científica foi, então, despertado.” (WHITE, ERNST, 2001, p. 4).

 

Texto produzido por Maykon Bernardo

(recorte de: BERNARDO, Maykon Q. Psicologia e Medicina Tradicional Chinesa: Pontos de Convergência. Criciúma, 2006, 367 p.)

 

 

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